Lançado em: 16-03-2019

2º domingo da quaresma - Ano C - Este é meu Filho amado. Escutai-O

“Escutai! Contemplar não é só olhar, mas também escutar. Escutar Jesus e o seu Evangelho coloca-nos na dinâmica do seu seguimento. E a escuta compromete, pois não se trata somente de escutar palavras, mas do deixar-se transformar pela Palavra de vida que escutamos. A escuta acompanha a história de Israel representada por Moisés e Elias (Lei e os profetas) com quem Jesus conversa. Em continuidade a esta história, Jesus não é um personagem ou um profeta a mais. Ele é o “Escolhido”; é somente a Ele que seus discípulos devem escutar. Em um estado de sonolência, não escutamos bem. E sem escutar bem, corremos o risco de, como Pedro, nos perdermos em nossos interesses pessoais, que na maioria das vezes são interesses egoístas. Podemos nos questionar: a quem estamos escutando, a Jesus ou aos nossos projetos? Infelizmente, também, acompanhamos que, para muitos de nossos irmãos de fé cristã, é preferível contemplar o rosto de Jesus transfigurado e suas vestes brancas e brilhantes, isto é, um Jesus glorioso, do que escutar suas duras palavras sobre o seu êxodo para Jerusalém, sobre suas opções pelos pequenos, fracos, indefesos, excluídos e marginalizados."

Referências bíblicas
1ª Leitura: Gn 15,5-12.17-18
Salmo: Sl 26(27),1.7-9abc.13.14 (R/. 1a)
2ª Leitura: Fl 3,17–4,1
Evangelho: Lc 9,28b-36

Uma das mais lindas experiências que já vivi foi a de contemplar o céu repleto de estrelas. Lembro-me de que, na ocasião, eu estava no interior do Paraná, e quando voltando de uma celebração na zona rural olhei para o céu, parecia que ele iria cair sobre mim. Eram tantas estrelas como eu jamais havia visto. Todo céu era um infinito brilho.

Hoje, morando em uma capital tão iluminada como Porto Alegre, contemplar as estrelas torna-se em minha vida um prazer muito raro. Mas continuo à noite olhando para o alto, sabendo que, mesmo sem vê-las, elas estão ali.

A liturgia deste segundo domingo da quaresma nos oferece algumas pistas para qualificar o nosso discipulado e, ao meu ver, é um convite à contemplação de belas imagens: as estrelas no céu, a face e bondade do Senhor, a voz do Pai e o testemunho de Paulo.

Contemplemos a primeira imagem. A leitura de Gênesis (Gn 15,5-12.17-18)afirma que o Senhor levou Abrão para fora e lhe disse: “Olha para o céu e conta as estrelas, se fores capaz!” E acrescentou: “Assim será a tua descendência” (Gn 15,5). Este convite é realizado a partir das interrogações feitas por Abrão nos versículos anteriores, a respeito de sua descendência. Abrão está preocupado, pois continuava sem um herdeiro da sua casa. Aos olhos humanos pode parecer absurda a comparação que o Senhor faz, comparando a descendência de Abrão com as estrelas do céu. Todavia, Abrão confia na promessa do Senhor e tem fé. A fé não é certeza absoluta, mas sim confiança diante do absurdo. Diante de tamanha fé, o Senhor propõe uma aliança: “Aos teus descendentes darei esta terra, desde o rio do Egito até o grande rio, o Eufrates”.

A segunda imagem que contemplamos é a da face e da bondade do Senhor que nos é apresentada pelo orante do Salmo 26. Diante da ameaça constante dos inimigos, o orante tem a fé de que é o Senhor a sua proteção e segurança. Portanto, este salmo é uma oração de confiança e um convite à esperança. Tendo o Senhor como a nossa luz e salvação, somos capazes de olhar para as maiores dificuldades e desafios de nossa vida com a certeza de que é a bondade do Senhor que vem em nosso socorro. “O Senhor é minha luz e salvação; de quem eu terei medo? O Senhor é a proteção da minha vida; perante quem eu tremerei? (Sl 26)

Mas a principal imagem que somos convidados a contemplar neste Domingo nos é dada pelo Evangelho de Lucas (Lc 9,28b-36). A cena é rica em detalhes. Jesus subiu à montanha para rezar e levou consigo Pedro e os irmãos Tiago e João. Os discípulos tinham sono e adormeceram. Jesus, enquanto rezava, mudou seu rosto de aparência e sua roupa tornou-se muito branca e brilhante. Jesus não está só. Suas companhias são Moisés e Elias. Com eles, o mestre de Nazaré conversa a respeito de seu êxodo para Jerusalém, onde irá padecer e morrer. Ao despertarem, os discípulos viram aquela cena gloriosa e, ao perceber que os homens estavam se retirando, Pedro, como que ainda embriagado pelo sono, fez a Jesus uma proposta: “Mestre, é bom estarmos aqui. Vamos fazer três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias” (Lc 9, 33). Enquanto Pedro ainda falava apareceu uma nuvem que cobriu a todos com sua sombra e o medo tomou conta dos três discípulos. Da nuvem saiu uma voz que dizia: “Este é o meu Filho, o Escolhido. Escutai o que ele diz!” (Lc 9, 35) E enquanto a voz ainda ressoava, Jesus encontrou-se sozinho. Os discípulos ficaram em silêncio e naqueles dias não contaram a ninguém o que tinham visto.

Diante de tantos detalhes deste relato evangélico, irei permanecer em uma palavra: “Escutai”. Contemplar não é só olhar, mas também escutar. Escutar Jesus e o seu Evangelho coloca-nos na dinâmica do seu seguimento. E a escuta compromete, pois não se trata somente de escutar palavras, mas do deixar-se transformar pela Palavra de vida que escutamos. A escuta acompanha a história de Israel representada por Moisés e Elias (Lei e os profetas) com quem Jesus conversa. Em continuidade a esta história, Jesus não é um personagem ou um profeta a mais. Ele é o “Escolhido”; é somente a Ele que seus discípulos devem escutar. Em um estado de sonolência, não escutamos bem. E sem escutar bem, corremos o risco de, como Pedro, nos perdermos em nossos interesses pessoais, que na maioria das vezes são interesses egoístas. Podemos nos questionar: a quem estamos escutando, a Jesus ou aos nossos projetos? Infelizmente, também, acompanhamos que, para muitos de nossos irmãos de fé cristã, é preferível contemplar o rosto de Jesus transfigurado e suas vestes brancas e brilhantes, isto é, um Jesus glorioso, do que escutar suas duras palavras sobre o seu êxodo para Jerusalém, sobre suas opções pelos pequenos, fracos, indefesos, excluídos e marginalizados.

Na segunda leitura (Fl 3,17–4,1) vamos contemplar o testemunho do Apóstolo que exorta a comunidade “chorando”. Sabemos que pela nossa fé temos um único protótipo, Jesus Cristo. Em um primeiro olhar para esta leitura, parece-nos que o apóstolo Paulo tem muita pretensão ao dizer: “sejam meus imitadores, irmãos, e observai os que vivem de acordo com o exemplo que nós damos” (Fl 3, 17). Paulo, ao se colocar como um modelo a ser imitado, põe sobre si a responsabilidade de testemunhar a fé com coerência e até as últimas consequências. Na sequência, o Apóstolo não esconde sua dor pelo mau testemunho deixado por aqueles que querem impor as prescrições da Lei aos pagãos que aderem ao Evangelho.

Em Filipenses o apóstolo Paulo mostra-se humano, não somente diz que chora, mas revela toda a sua afetividade ao exortar a comunidade na perseverança do seguimento de Jesus: “Assim, meus irmãos, a quem quero bem e dos quais sinto saudade, minha alegria, minha coroa, meus amigos, continuai firmes no Senhor” (Fl 4, 1).

Em síntese, a partir das leituras deste segundo domingo da quaresma, busquemos:

- confiar no Senhor, pois ele é fiel à aliança;

-acreditar na sua proteção mesmo diante das maiores dificuldades;

- escutar a voz do Filho Jesus e seguir os seus passos em silêncio obediente até Jerusalém e testemunhar o seguimento a Jesus com a mesma ousadia de Paulo.

A reflexão é de Rosa Maria Ramalho, fsp, religiosa da Congregação das Irmãs Paulinas. Ela é bacharela em Teologia pelo Instituto São Paulo de Estudos Superiores - ITESP, licenciada em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná - PUCPR e mestra em Teologia pelas Faculdades EST, São Leopoldo.



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