Lançado em: 14-09-2019

15 de setembro de 2019 – 24º Domingo do Tempo Comum – Ano C

A Igreja convida a renovar-nos todos dias pela conversão do nosso coração, voltando como o filho pródigo do Evangelho para a Casa do Pai, que nos espera.
Dá-me a parte da herança
Tantos homens do nosso tempo, em nome da liberdade, afastam–se de Deus como o filho pródigo do Evangelho. Aproveitam-se dos tesouros que o Senhor lhes pôs nas mãos para O abandonarem e ofenderem.
A beleza, a inteligência, a riqueza, a juventude são talentos que é preciso aproveitar bem e pôr ao serviço de Deus e dos outros. Mas, por desgraça, podem ser tentações que levam à infelicidade. Como ao jovem do Evangelho podem conduzir à miséria interior. A vida deixa de ter sentido e fica só a desilusão e a frustração.

Santo Agostinho é um exemplo desta situação. Ao encontrar de novo o caminho da casa paterna escreve no livro das Confissões: “Senhor, fizestes-nos para Ti e o nosso coração anda inquieto enquanto não descansa em Ti “ (Confissões 1,1,1,ML32,661).
Um bispo célebre dos Estados Unidos, Mons. Fulton Sheen costumava falar pela rádio e escreveu muitos livros de espiritualidade. Um dia ficou muito surpreendido quando uma religiosa se aproximou para lhe agradecer a vocação. E explicou: -Há anos, numa viagem de avião, o senhor bispo sentou-se a meu lado. Eu era jovem e só pensava em vaidades e Vossa Reverência disse-me: – a menina já se lembrou que tem de servir a Deus com a sua beleza?
Essas palavras fizeram-me pensar e acabei deixando tudo pela vida religiosa e estou muito feliz.
A vida tem de se gastar ao serviço de Deus. Só assim tem sentido. A liberdade do pecado é libertinagem e escravidão.
E o homem iludido por essa falsa liberdade acaba por sentir-se, mais cedo ou mais tarde, frustrado, abandonado por aqueles que se mostravam seus amigos, vazio por dentro e marcado pelas feridas e sujidade do pecado, como o filho pródigo.
Aquele jovem acabou a guardar porcos, passando fome e querendo alimentar-se das alfarrobas que comiam.

Pai, pequei
O pródigo teve a valentia de se enfrentar com a realidade da sua situação. E não deixou morrer dentro de si a saudade da casa paterna, onde era feliz e onde os trabalhadores eram bem tratados.
Hoje falta esta coragem de se enfrentar com o pecado, de chamá-lo pelo nome. E essa é desgraça característica do nosso tempo. As pessoas querem chamar bem ao mal para se justificarem dos seus desvarios. As leis que liberalizam o aborto põem nas mãos dos políticos o poder tornar legítimo aquilo que é um crime horroroso em nome duma pretensa liberdade da mulher. Outros querem tornar legítimas as uniões de pessoas do mesmo sexo, condenadas já no primeiro livro da Bíblia. Tudo em nome da liberdade.
Precisamos de ter a coragem do jovem do Evangelho: sentar-nos a pensar, sermos sinceros connosco mesmos e com Deus. Não chamar bem ao mal, bater em nosso peito sem nos desculparmos.
Precisamos ainda de ter coragem de acusar os nossos pecados na confissão: Pai, pequei contra o Céu e contra Ti, já não sou digno de ser chamado teu filho. Esta humildade que nos leva a acusar-nos com sinceridade abre-nos à misericórdia de Deus. É fundamental para nos confessarmos bem e nos libertarmos do pecado.
Finalmente temos de voltar para a casa paterna através do arrependimento, da nossa contrição. Levantar-me-ei e irei ter com meu pai. A conversão é esse voltar para a casa do pai, com a certeza que Ele nos espera para nos acolher e perdoar.

O mais importante é sempre a contrição, o ter pena dos pecados. Devemos pedir ao Senhor nos dê essa pena das nossas faltas.
Procuremos confessar-nos bem. Sem medos ou escrúpulos, mas com sinceridade e clareza, indicando os pecados graves, o seu número e circunstâncias agravantes e também os pecados leves mais importantes. Como o filho pródigo digamos: acuso-me disto, disto e disto…, sem estar à espera que o sacerdote nos pergunte. Aqueles que vão para a confissão gloriar-se: – não falto à missa, não faço mal a ninguém e coisas do género parecem-se com o fariseu que foi ao templo rezar e saiu de lá pior que entrou, porque o orgulho o cegara e se julgava melhor que os outros.
Não devemos ir para a confissão contar histórias inúteis, fazendo perder tempo ao sacerdote.
Depois da absolvição procuremos cumprir a penitência e acrescentar da nossa parte outras boas obras em reparação do mal que fizemos, “Já não mereço chamar-me teu filho, aceita-me como um jornaleiro da tua casa”

A nossa reconciliação com Deus passa pelo sacramento da reconciliação. Ao institui-lo, em dia de Páscoa, Jesus diz aos apóstolos: “àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados. Àqueles a quem os retiverdes serão retidos” (Jo 20, 23). Jesus concede-lhes esse poder e ensina que só neste sacramento dará o perdão. Por isso pensam erradamente os que afirmam que se confessam directamente a Deus. Ele, que é o ofendido, é que põe as condições e não quem O ofendeu, que somos nós.
Temos de estimar muito este sacramento maravilhoso. É o sacramento da alegria, que nos tira de cima das costas o peso dos nossos pecados. Robert de Niro, cineasta americano, numa das suas películas, relata a sua história de menino num dos bairros mais pobres de Nova Yorque, o Bronx. O pequeno personagem de nove anos tinha visto um assassinato mas não contou à polícia que o interrogara. Para tirar aquele peso das costas foi à igreja confessar-se. Juntamente com as suas traquinices referiu aquela situação sem revelar nomes. O sacerdote deu-lhe a absolvição e uns Pai-nossos de penitência. E o cineasta faz, em voz de fundo, este comentário: – que maravilha ser católico, porque, graças à confissão, podes partir sempre do zero. Na confissão podemos sempre começar uma vida nova e ser nova criatura.
Temos de animar os sacerdotes para este ministério tão importante, hoje que se vêem tão absorvidos por muitos trabalhos. João Paulo II, no seu livro Dom e mistério, por ocasião dos seus cinquenta anos de sacerdote, conta a sua visita a Ars, em França, quando era jovem sacerdote, em fins de 1947. Emocionou-se ao visitar a igreja onde o santo Cura d’Ars confessara: “S.João Maria Vianney impressiona – refere o papa – sobretudo porque nele se revela a força da graça que age na pobreza de meios humanos. Tocava-me profundamente, de modo particular, o seu heróico serviço no confessionário. Aquele humilde sacerdote, que confessava mais de dez horas por dia, alimentando-se pouco e dedicando ao descanso apenas umas horas, tinha conseguido num período histórico difícil, suscitar uma espécie de revolução espiritual em França e não só. Milhares de pessoas passavam por Ars e ajoelhavam-se no seu confessionário.
Do encontro com a sua figura nasceu-me a convicção de que o sacerdote realiza uma parte essencial da sua missão através do confessionário, através daquele fazer-se “prisioneiro do confessionário” (Dom e mistério (Lisboa 1996) p.66).
Haverá mais alegria no Céu

O Evangelho fala-nos da alegria de Deus em perdoar, em acolher o pecador arrependido. É o que Jesus lembra na parábola do pastor que encontra a ovelha perdida. E na parábola da mulher que achou a dracma e faz uma festa com as amigas. Jesus diz que o pai estava à espera do seu filho para o abraçar e cobrir de beijos.

São João Paulo II convidava a Igreja a redescobrir a maravilha do sacramento do perdão. Que nos animemos a recebê-lo muitas vezes, a prepará-lo bem, a fazer muitas vezes de filho pródigo que regressa à casa do pai e sente a alegria do perdão de Deus.
Bento XVI na Exortação Sacramento da Caridade diz: “Os padres sinodais afirmaram justamente que o amor à Eucaristia leva-nos a apreciar cada vez mais também o sacramento da Reconciliação. Por causa da ligação entre ambos os sacramentos, uma catequese autêntica acerca do sentido da Eucaristia não pode ser separada da proposta dum caminho penitencial. O Sínodo lembrou que é dever pastoral do Bispo promover na sua diocese uma decisiva recuperação da pedagogia da conversão, que nasce da Eucaristia e favorecer entre os fieis a confissão frequente. Todos os sacerdotes se dediquem com generosidade, empenho e competência à administração do sacramento da Reconciliação” (n.os 20-21)
O santo Padre Francisco tem animado as pessoas a confessar-se com frequência. Confidenciou que se confessa de quinze em quinze dias.

E dizia aos jovens: “A misericórdia de Deus é muito concreta, e todos somos chamados a fazer experiência dela pessoalmente. Quando tinha dezassete anos, num dia em que devia sair com os meus amigos, decidi passar antes pela igreja. Ali encontrei um sacerdote que me inspirou particular confiança e senti o desejo de abrir o meu coração na Confissão. Aquele encontro mudou a minha vida. Descobri que, quando abrimos o coração com humildade e transparência, podemos contemplar de forma muito concreta a misericórdia de Deus. Tive a certeza de que Deus, na pessoa daquele sacerdote, já estava à minha espera, ainda antes que desse o primeiro passo para ir à igreja. Nós procuramo-Lo, mas Ele antecipa-Se-nos sempre, desde sempre nos procura e encontra-nos primeiro. Talvez algum de vós sinta um peso no coração e pense: Fiz isto, fiz aquilo… Não temais! Ele espera-vos. É pai; sempre nos espera. Como é belo encontrar no sacramento da Reconciliação o abraço misericordioso do Pai, descobrir o confessionário como o lugar da Misericórdia, deixar-nos tocar por este amor misericordioso do Senhor que nos perdoa sempre!” (Mensagem para JMJ Cracóvia)

Não é de admirar que o demónio faça guerra a este sacramento, mais que a qualquer dos outros . Porque lhe arranca as almas das suas garras. O Santo Cura d’Ars era molestado com frequência pelo demónio durante as poucas horas de sono. E depressa deu conta que a fúria diabólica se manifestava com mais violência quando vinha a caminho algum grande pecador.
Animemos os nossos amigos a confessar-se e a confessar-se com frequência.
Que a Virgem ajude todos os cristãos a descobrirem as maravilhas do amor de Jesus, sempre disposto a perdoar e a encher-nos da Sua graça.

 



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