Lançado em: 21-12-2019

4º Domingo do Advento

Comentários dos textos bíblicos
1. I leitura: Is 7,10-14
Esse oráculo situa-se em torno do ano 734 a.C., no reinado de Acaz. Nesse período, o rei de Israel (Reino do Norte) uniu-se ao rei de Aram para tomar Jerusalém, que pertencia ao Reino do Sul. Essa guerra foi chamada Siro-Efraimita. A provável tomada de Jerusalém trazia consequências não somente políticas e sociais, mas sobretudo religiosas, pois cairia por terra a promessa da presença de Deus em Jerusalém, feita a Davi. Em meio a essa realidade de tensão, surge a pergunta: Deus realmente estava com o povo de Judá ou o havia abandonado? Diante da dúvida, Judá tenta fazer aliança com a Assíria, sendo criticado pelo profeta Isaías, visto que a única esperança era confiar na aliança estabelecida com Deus.

O rei Acaz é incitado pelo profeta e por Deus a pedir um sinal, que poderia ser “proveniente da profundeza da terra, como das alturas do céu” (v. 11) – ou seja, ter qualquer amplitude, sem restrição. O rei recusa-se a pedir um sinal que confirmasse a proteção de Deus e a fidelidade dele às promessas, tentando mostrar, por meio dessa recusa, que era temente ao Senhor. Isaías o desmascara, desvelando a inconfiabilidade do rei, dado que este adorava outros deuses e havia até mesmo sacrificado seus filhos aos ídolos (cf. 2Rs 16,1-4). Deus, contudo, por meio do profeta, confirma sua proteção e seu sinal, que será um evento: o nascimento de um descendente de nome Emanuel. Esse sinal foi objeto de várias interpretações. Alguns afirmam que seria o nascimento de Ezequias, o filho de Acaz, pelo fato de esse herdeiro ter sido um bom rei, verdadeiro monarca religioso que devolveu a esperança ao povo. Outros sustentam que seria o filho do profeta Isaías com a mulher mencionada em Is 8,3. Há comentadores que dizem se referir a algum acontecimento, ocorrido durante a Guerra Siro-Efraimita, que dava esperança ao povo e a certeza da presença de Deus. Por fim, há aqueles que interpretam o sinal como uma referência a Jerusalém e à certeza da continuidade da dinastia davídica, porque Deus protegerá sua cidade e seu povo.

O nome “Emanuel” expressa esperança e comprova a presença de Deus no meio de seu povo. Na tradução grega (Septuaginta) e, posteriormente, na tradução latina (Vulgata), a palavra “jovem” (v. 14) é traduzida por “virgem”, facilitando a identificação com Maria. As comunidades cristãs, ao relerem esse texto profético, afirmam referir-se à vinda do Messias, como constataremos no trecho do evangelho escolhido para esta liturgia.

2. Evangelho: Mt 1,18-24
O tema central de Mt 1,18-24 é a identidade de Jesus, partindo de sua origem humana e divina. Essa narrativa pode ser chamada de anunciação do nascimento de Jesus a José. Ela vem após a genealogia, na qual Mateus afirma que Jesus é “filho de Davi” e “filho de Abraão”. Nesta, realça-se a natureza humana de Jesus, que faz parte da tradição judaica e é da descendência davídica. Já o relato desse dia visa explicitar a filiação divina de Jesus.

Estabelecendo uma conexão com o texto da genealogia, ao utilizar a expressão “a origem de Jesus Cristo” (v. 18), o evangelista nos informa que Maria era noiva de José.
Na tradição judaica, o noivado já constituía um compromisso definitivo, por isso Maria era considerada desposada por José, embora ainda não vivessem juntos. Após esse dado, o autor relata que Maria estava grávida e, assim, poderia ser repudiada pelo noivo e ser considerada adúltera. José inicialmente pensa em abandoná-la, mas, em sonho, é-lhe enviado um mensageiro que afirma ser a gravidez de Maria uma ação do Espírito Santo. O Espírito, portanto, torna-se o agente principal na geração do Filho de Deus (cf. v. 18), confirmando a filiação divina de Jesus.

Quando o anjo chama José, ficamos sabendo que este é descendente de Davi. Tal dado é importante, pois José, ao acolher Jesus como filho, lhe dará a ascendência davídica (cf. v. 21), cumprindo a promessa pronunciada pelo profeta Natã em 2Sm 7,8-17. Também é anunciada a missão específica de Jesus – “salvar o povo do pecado” (v. 21). Jesus será aquele que estabelecerá uma nova aliança entre Deus e o povo. Mateus, portanto, harmoniza o título “filho de Davi” com a filiação divina.

No final desse trecho, temos a citação de Is 7,14, presente na I leitura. Nota-se uma releitura cristã da profecia de Isaías, baseando-se na tradução grega. Mateus se serve dessa citação para comprovar não a virgindade de Maria, e sim a filiação divina de Jesus e sua descendência davídica, confirmando-o como o Messias prometido pelos profetas. De fato, a concepção virginal, para Mateus, é o cumprimento do plano de Deus, explicitado por meio dos profetas.

Sua designação como “Emanuel” significa que Jesus será a revelação da presença de Deus no meio do povo. Ao unir a filiação divina, a genealogia de Jesus e a ascendência davídica, o evangelista confirma que Deus não abandonou a humanidade, mas está presente com seu amor e benevolência, e a salvação realizada por meio de Jesus Cristo será oferecida a todas as nações.

3. II leitura: Rm 1,1-7
O cabeçalho da carta aos Romanos contém o remetente, Paulo, designado pelo título de apóstolo por vocação, cuja missão é anunciar o evangelho de Deus: Jesus Cristo. Após longa descrição do remetente e sua missão, são mencionados os interlocutores e conclui-se com a saudação inicial, típica de Paulo: “graça e paz” (v. 7).

Nesses versículos, o apóstolo expõe o significado da expressão “evangelho de Deus” (v. 1), apresentando também os temas que serão desenvolvidos no decorrer da carta, escrita a uma comunidade que ele não conheceu pessoalmente. Paulo se autodenomina servo de Jesus Cristo, título dado aos grandes personagens do AT, como Moisés, Josué, Davi e os profetas. Na tradição paulina, contudo, todo cristão é servo de Cristo, pois exprime a pertença total a ele, estando totalmente ao seu serviço. Paulo também se considera apóstolo, porque foi chamado, escolhido e consagrado por Deus (cf. Gl 1,11-17; 1Cor 9,1; 15,10) para anunciar que o Messias esperado e anunciado pelos profetas é Jesus, descrito como a Boa-Nova (evangelho) de Deus. O termo “evangelho” era utilizado para anunciar o nascimento de um descendente da realeza ou a vitória em determinada guerra. No Dêutero-Isaías, a Boa-Nova é a intervenção de Deus na história, por meio de seus prodígios, a fim de salvar seu povo; o termo é utilizado para anunciar o retorno dos exilados e a restauração da comunidade, após o exílio. Essa intervenção na história, em Romanos, dá-se na encarnação do Filho, no envio do Messias da descendência de Davi, visto que José acolhe Jesus como filho, apesar de ele ser Filho de Deus (cf. Mt 1,21.25). O Messias proveniente da dinastia davídica era algo presente nas expectativas messiânicas, sobretudo do Reino do Sul. No final do v. 4, temos uma menção à morte, à ressurreição e à soberania de Jesus ao retornar para o Pai. Paulo, portanto, sintetiza toda a missão de Jesus, desde a encarnação até o seu retorno ao Pai, pelo poder do Espírito.

O apóstolo afirma ainda que sua missão é anunciar o Messias Jesus entre os gentios. Assim, a salvação trazida por Jesus é universal. É dada a todos, mas cada um é chamado a acolhê-la. A referência à “santidade” deve ser entendida como um processo que se desenvolve na vida do batizado, à medida que vai se conformando à imagem do Filho de Deus, o Messias Jesus.

Paulo termina com a saudação que encontramos em todas as cartas: “graça e paz”. Essa saudação expressa a gratuidade do amor do Pai, que envia seu Filho para revelar sua benevolência (graça) e a paz, um dos dons messiânicos prometidos por Deus por meio dos profetas.

IV. Pistas para reflexão
Celebrar o Advento é celebrar a primeira vinda de Jesus, pois, para nós, cristãos, ele já veio e inaugurou seu Reino entre nós. A certeza da encarnação de Jesus renova nossa esperança em sua vinda definitiva no fim dos tempos. Neste último domingo do Advento, somos também interpelados a responder: quem é Jesus Cristo para nós? Sua mensagem é Boa Notícia em nossa vida? O que significa ser dócil à vontade de Deus? O que significa afirmar que Jesus é o Deus conosco?

 



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