Lançado em: 26-05-2018

SOLENIDADE DA SANTÍSSIMA TRINDADE ANO B 27 de maio de 2018

Deuteronômio 4,4b-6.8-9. Guarda suas leis e seus mandamentos.

Salmo 32/33,4-6.9.18-20.22. Deus ama o direito e a justiça.

Romanos 8,14-17. No qual todos nós clamamos: Abá, ó Pai.

Mateus 28,16-20. Quando viram Jesus, prostraram-se diante dele.

EIS QUE EU ESTAREI CONVOSCO TODOS OS DIAS, ATÉ A CONSUMAÇÃO DOS SÉCULO

1- PONTO DE PARTIDA

Com a festa de Pentecostes, encerramos a Tempo Pascal e, no domingo seguinte, celebramos a festa da Santíssima Trindade. É uma festa relativamente recente. Entrou no calendário da liturgia romana em 1334 e, com Concílio Vaticano II, deixou de ser temática, recebendo uma tonalidade mais bíblica.

A liturgia sempre celebra a Páscoa do Senhor, o Salvador, e por Ele dá graças ao Pai, o Criador, no Espírito de Amor, o Santificador. Portanto, toda celebração é Trinitária e a Páscoa, celebrada o ano inteiro, nos faz mergulhar no mistério inefável da Trindade Santa, fonte, modelo e meta do peregrinar da humanidade. Portanto, depois de celebrarmos as festas pascais, contemplamos o mistério de amor do nosso Deus que se revela como Pai, Filho e Espírito Santo.

Com isso, a festa de hoje faz uma síntese, juntando o sentido da encarnação e da redenção realizados na história, onde o Deus Vivo, a Comunhão Trinitária, é protagonista. Não é a festa para desenvolver a doutrina sobre a Santíssima Trindade, mas para renovação da aliança com o Pai que nos criou e nos libertou, entregando-nos o dom da vida plena em Jesus Cristo, seu Filho amado, o Verbo encarnado que, por sua vez, nos confiou com sua morte e ressurreição o dom do seu Espírito.

A celebração de hoje nos ajuda a compreender e descobrir que Deus não é solidão infinita, mas comunhão de luz e de amor, vida doada e recebida num eterno diálogo entre o Pai e o Filho, no Espírito Santo Amante, Amado e Amor, como dizia Santo Agostinho.

2- REFLEXÃO BÍBLICA, EXEGÉTICA E LITÚRGICA

Primeira leitura – Deuteronômio 32-34.39-40. Logo de início se percebe claramente que os teólogos deuteronomistas – visando sempre explicar a causa da catástrofe dos dois reinos israelitas (cf. 2Reis 17 – fazem com esta passagem uma catequese sobre Javé o Deus de Israel.

A leitura trata de um comentário do primeiro mandamento da Lei de Deus: Israel será monoteísta, isto é, adorar um Único Deus. Como poderia ser de outra forma uma vez que o Senhor deu tantos indícios da escolha que fizera de Israel?

Por isso, é uma meditação da história da salvação que consolida a fé ao autor do Deuteronômio no Deus Único. Esta história chega ao auge de modo especial nos três acontecimentos decisivos que são, ao longo do Deuteronômio, a promessa aos patriarcas (versículo 32; cf. Deuteronômio 1,10; 26,5), a saída do Egito (versículos 32-37; cf. Deuteronômio 4,20; 5,6; 7,8; 9,26) e, finalmente, a entrada em Canaã e a promulgação da lei (versículo 31: “Aliança”; cf. Deuteronômio 4,21; 12,9). Dois textos importantes do Deuteronômio (6,21-23; 26, 5-10) guardam também estas três etapas como sendo as mais importantes para a elaboração de uma doutrina da história da salvação.

O Deuteronômio é o primeiro livro a tomar uma consciência clara da história da salvação. Três acontecimentos antigos prendem especialmente sua atenção: Deus se fez próximo de Israel engajando-se por promessa diante dos patriarcas, indo atrás do povo exilado no Egito e introduzindo-o na terra prometida. Um mesmo e Único Deus está na origem destes três acontecimentos: por que não estaria também na origem dos acontecimentos que nos interpelam? Deus é único, portanto, seu amor dura eternamente.

Esta leitura apresenta Javé, o único Deus, e conseqüentemente, desmascara os ídolos que oprimem o povo. Só quem livra o povo da escravidão é que deve ser considerado Deus de Israel.

Não é um Deus de conceitos, mas alguém que age a favor do seu povo. E a fé não é abstrata, porém está apoiada na história, na experiência do Deus vivo, que atua libertando para que todos tenham vida. Javé, o único Deus, tirou Israel do Egito, falou-lhe no Sinai e deu-lhe a terra prometida: estas são as grandes ações de Deus que o povo sempre deve celebrar. Deu a lei conforme Israel podia assimilar. Mas o que Ele quer dar mesmo, não só a Israel, mas a todos nós, hoje é o seu Espírito. Espírito que nos ajuda a retomar a experiência do passado e nos convida a viver no presente a Aliança de Deus, em todas as circunstâncias da vida pessoal, comunitária, social e política.

É na caminhada de nossas comunidades que Deus Único continua presente, suscitando liberdade e vida. É um Deus próximo, acessível, que fala conosco, nos acompanha: Ele conta com a amizade de seu povo. Não é um Deus indiferente à nossa realidade.

Salmo responsorial – 32/33, 4-6 e 9.18-20 e 22. O Salmo 32/33 é um hino á providencia de Deus. É um louvor, salientando duas características de Deus: Ele é o Criador e o Senhor da história e de toda a humanidade. Louvor cantado durante ou após o Exílio da Babilônia (587-530 a.C.), quando o povo começou a conhecer Deus como Criador. Com este Salmo, louvamos a Deus que é aliado da humanidade e com ela quer construir um mundo de justiça e direitos iguais para todos.

 

Neste salmo há duas características fortes do “rosto de Deus”: Ele é o Criador e o Senhor da história. Não é somente o Deus de Israel, mas de toda a humanidade. O versículo 5 resume isso de forma clara: ele ama a justiça e o direito, e seu amor enche a terra”. Este Salmo nos apresenta o Deus que deseja a justiça e o direito no mundo inteiro, e não somente em Israel. Podemos afirmar, então, que estamos diante de Deus, o aliado da humanidade. Ele quer, com todos os seres humanos, construir um mundo de justiça. Deseja que o mundo inteiro o tema e experimente o seu amor.

 

O Novo Testamento vê Jesus como a Palavra criadora do Pai (João 1,1-18) e como réu universal. A paixão segundo João o apresenta como rei do mundo inteiro, um rei que dá a vida para que a humanidade possa viver plenamente. A própria ação de Jesus não se limitou ao povo judeu, mas abriu-se para outras raças e culturas, a ponto de Jesus encontrar mais fé fora do que dentro de Israel (Lucas 7,9).

 

Agradeçamos ao Senhor o seu amor que se revela na criação do mundo, na caminhada de libertação do seu povo e em nossa vida. Entoando este salmo na celebração de hoje, peçamos que o Senhor renove todas as coisas e nos confirme na fé e na aliança do seu amor fiel.

 

FELIZ O POVO QUE O SENHOR ESCOLHEU POR SUA HERANÇA.

 

Segunda leitura – Romanos 8,14-17. Este trecho da carta aos Romanos pode ser considerado como o seu centro. Nesse mesmo trecho chega ao cume o ensinamento paulino, “nós somos filhos, Deus é nosso Abbá-Papai”. O que diferencia o Cristianismo das outras religiões pode resumir nessa afirmação. As religiões falavam da paternidade divina enquanto criador, fonte de vida, não enquanto fonte de amor e misericórdia. O Judaísmo conheceu esse amor de Deus, mas se perdeu na complicação das leis e questiúnculas, lembrando mais o temor que o amor de Deus. O Evangelho que revelou o Pai indo ao encontro do filho pecador arrependido (Lucas 15), mostrou um relacionamento de filho adulto e livre e não mais de escravo e senhor, entre Deus e a pessoa humana.

 

O privilégio do filho e da filha de Deus é o de poder chamá-Lo pelo nome Pai (Abbá talvez é uma referencia à oração do Pai-Nosso, provavelmente ainda conhecido em aramaico por alguns que falavam e conviviam com Paulo: (versículo 15). Portanto o termo Abbá é uma das palavras aramaicas presentes no Novo Testamento, e dever ter impressionado de tal modo os cristãos que ouviam Paulo, acostumados a serem tratados como servos, que foi conservado na sua língua original.

 

O fiel então levado pelo espírito de filho e de filha clamaria (cf. Lucas 1,46: Magnificat), Abbá. Acho porém que se deva dar ênfase ao verbo com um sentido de “proclamar”. E o Espírito dentro de nós nos leva a proclamar bem alto que Deus é nosso Pai. O Espírito então se une ao nosso espírito para testemunhar essa nova realidade. Em Gálatas 4,6 é Ele próprio que clama.

 

A segunda dimensão desta existência cristã é a de herdeiro de Deus (versículo 17). Aqui Paulo retoma o tema da primeira frase, e afirma que somos herdeiros. Sendo filho e filha, temos direito a uma vida de família e a organizar os bens da casa. O termo herdeiro não deve ser compreendido aqui no seu sentido moderno (receber após a morte do pai), mas no seu sentido hebraico de tomar posse (Isaias 60,21; 61,7; Mateus 19,29; 1Coríntios 6,9).

 

No Primeiro Testamento a herança indicava a terra prometida (Deuteronômio 4,21) e não incluía em si a morte de alguém. No Novo Testamento a herança é o Reino (Mateus 25,34) e a vida eterna (Mateus 14,29). Cristo pela ressurreição recebeu tudo isso do Pai e o dá aos seus irmãos que se uniram a Ele pelo batismo e com Ele sofreram por causa da mensagem proclamada.

 

Para exprimir essa filiação, Paulo usa o termo do “direito pagão”, não conhecido dos judeus: “adoção”, que integra totalmente o adotado na família, da qual ele recebe o nome, a herança e o privilégio de chamar o pai de família, papai. O fato de pertencer ao povo escolhido levaria a esta adoção (Romanos 9,4), mas na vivência histórica desta vocação, a lei causou a morte. Assim que na Nova Aliança não basta mais a pertença carnal para conferir a filiação e a dignidade de filho de Deus. É necessário renascer pelo Espírito (João 3,5). O que Jesus é por natureza, a pessoa humana é de direito em vista da adoção.

 

Assim o Espírito que habita em nós nos faz herdeiros (cf. 1Coríntios 6,9-11; Gálatas 4,21-31; Romanos 8,15.21), mas por enquanto temos só a garantia (1Coríntios 5,5). O direito à herança plena teremos com a nossa ressurreição (1Coríntios 15,50).

 

Evangelho – Mateus 28,16-20. “Foram para a montanha que Jesus lhes tinha indicado”. A montanha reveste-se de um sentido teológico especial. Não se trata de uma indicação topográfica, mas de uma encenação típica para uma revelação. Há muitos exemplos no Primeiro Testamento. Mateus retoma este motivo com grande vigor. O lugar do importante ensinamento inicial é a montanha quando proclamou as Bem-Aventuranças (Mateus 5,1) que deu à doutrina aí proferida o nome de “Sermão da Montanha”. A “montanha” ganha novo relevo como lugar típico de revelação em Mateus 15,29, cuja encenação se assemelha até nos detalhes com Mateus 5,1. A Transfiguração de Jesus na “montanha” (Mateus 17,1-9), revela o Messias maior do que Moisés e Elias, os maiores do Primeiro Testamento.

 

“Quando viram Jesus, prostraram-se diante dele”. Prostrar-se diante de Jesus é reconhecer a sua divindade sobre o céu e sobre a terra. Agora, ressuscitado, possui “toda autoridade no céu e sobre a terra” (versículo 18b). Essa autoridade plena, dada pelo Pai, é muito próxima da humanidade (Jesus “se aproximou dos discípulos”, versículo 18a). Não só está próxima, como é entregue à Igreja: “Vão e façam com que todos os povos se tornem deus discípulos” (versículo 19a).

 

Aponta-se no Evangelho de Mateus uma lista de cinco discursos de Jesus. Todos eles tratam do Reino dos céus. Considerando 28,18-20 como o último “discurso” de Jesus sobre o Reino dos céus, pode-se perguntar: que idéia ou teologia do Reino transparece nele?

 

Para desvendar isto precisa-se conhecer o gênero literário deste trecho. As derradeiras palavras de Jesus assumem também o procedimento literário que contem quatro partes:

uma introdução: “Jesus chegou perto deles, e disse a eles”

uma comunicação: “Toda a autoridade sobre o céu e sobre a terra me foi

entregue”

uma ordem: “Ide e fazei que todas as nações se tornem discípulos, batizando-as

… e ensinando-as…”

uma motivação: “E eis que eu estou convosco todos os dias até a consumação

dos séculos”.


 Pe. Bendito Mazeti - Diocese de São José do Rio Preto



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