Lançado em: 25-08-2018

21º domingo do tempo comum

I. Introdução geral

Desde o 17º domingo, estamos ouvindo o capítulo 6 do Evangelho de João, que traz o relato da multiplicação dos pães e o sermão do Pão da Vida. É a “inserção joanina” na sequência dos evangelhos de Marcos (Ano B). Neste domingo, essa sequência chega ao ponto final e decisivo.

A primeira leitura narra a escolha que Josué apresentou às tribos de Israel quando ocuparam a terra de Canaã. Que divindade cultuariam, as divindades de Canaã ou o Senhor (Yhwh), que os tirou do Egito e lhes deu a terra? A escuta do evangelho nos coloca diante da pergunta final que Jesus faz aos seus discípulos: “Vós também quereis ir embora?”. Será que unimos nossa resposta à de Pedro: “Tu tens palavras de vida eterna!” (Jo 6,67-68)?

Diz-se que o povo hoje sente muita dificuldade para tomar uma decisão clara e comprometer-se definitivamente. A liturgia deste domingo nos convida a refletir sobre essa dificuldade, como também tomar nossa decisão e fazer nossas opções.

III. Comentário dos textos bíblicos

Evangelho: Jo 6,60-69
Também o evangelho de hoje nos apresenta o tema da opção e da fidelidade. O contexto é o final da seção do pão no Quarto Evangelho. O pão material que Jesus distribuiu ao povo não deve ser visto somente como solução para seus problemas temporais (cf. 6,14-15), mas como sinal de um dom de Deus superior, representado pela expressão “vida eterna”. Foi isso que Jesus falou no início, dialogando com a multidão em Cafarnaum (cf. 6,26-27). No fim do diálogo, ele repete os mesmos termos. É nesse ponto que se inicia a leitura evangélica de hoje: “Depois de ouvi-lo, muitos dos seus discípulos disseram: ‘Este discurso é duro; quem aguenta escutá-lo?’” (6,60). Quais foram, então, essas palavras duras?

“Se não comerdes a carne do Filho do homem e não beberdes o seu sangue, não tereis vida em vós mesmos” (6,53). Comer carne humana e beber sangue são abominações terríveis para os judeus (e para nós). Entenderam tratar-se de antropofagia (cf. 6,52). Precisamos entender as palavras de Jesus do modo certo. Jesus insiste: “Quem come este pão viverá eternamente” (6,58). Trata-se de uma opção vital. Para os contemporâneos de Jesus, optar por ele era duro, pois implicava perder o amparo da comunidade judaica. Aceitá-lo como “Pão da Vida” implicava ser marginalizado pelo “mundo”. Mas Jesus não retira suas palavras. Pelo contrário, acrescenta que será mais difícil ainda aceitar seu “enaltecimento” na cruz e na glória. Os raciocínios humanos (a “carne”) não ajudam a compreender isso; só quem é animado pelo Espírito tem acesso à vida em Cristo. Mas, para tanto, é preciso optar, na fé, pelas “palavras de vida eterna” (isto é, que dão a vida eterna, 6,68). É preciso confiar na manifestação do mistério de Deus que Jesus nos proporciona.

As palavras de Jesus são “duras” não só por sua significação teológica, mas também por suas consequências. Implicam aceitar Jesus sacrificado como alimento de nossa vida. Isso era duro para os que puseram a esperança num messias político-nacionalista. Exatamente porque pensavam em categorias “carnais”, não podiam aceitar um Messias que viesse numa “carne” humilde e aniquilada, um Messias alheio aos sonhos teocráticos. Menos ainda poderiam aceitar que essa “carne” pudesse “subir” à glória (cf. 6,62), porque não entenderam que “a Palavra se tornou carne e nós contemplamos sua glória” (1,14). A glória de Jesus Cristo é a cruz: “enaltecido” na cruz, ele atrai a si todos os que se deixam atrair pelo Pai (cf. 12,32; 6,44).

Também para nós, as palavras do Cristo são difíceis de aceitar. Sua “carne” é bastante incompatível com nossos conceitos, configurados em torno da riqueza e do sucesso. E sua “glória”, nós a confundimos com a visibilidade efêmera do espetáculo religioso. Somos incapazes de imaginar a “subida” de Jesus para junto do Pai depois que ele viveu a condição de nossa carne até seus mais profundos abismos. Será que já imaginamos alguma vez como nosso “senhor” um desses homens sofridos, quebrados, anti-higiênicos, porém radicalmente autênticos e bons que vivem ao nosso redor? Talvez consigamos ter pena de tais pessoas, mas admirá-las e tomá-las como guia de nossa vida é quase impensável. A glória de Jesus e sua subida a ela, por meio da morte de cruz, são ainda mais escandalosas do que a carne, a encarnação.

Com categorias “carnais” não chegamos a essa outra visão sobre a “carne” em que veio a nós a Palavra. Precisamos de um impulso superior. O “Espírito”, a força operante de Deus, levar-nos-á a acolher o mistério do escravo glorificado. Jesus mesmo nos transmite esse Espírito (cf. Jo 3,34), e sua “exaltação” é a fonte desse dom (cf. 7,39). Suas palavras são “espírito e vida” – Espírito que dá vida (cf. 6,68; 6,63). Só nos entregando à sua palavra e a aplicando em nossa vida poderemos experimentar que ele é fidedigno. O “espírito”, que há de superar o que nossas categorias humanas recusam, vem do próprio “objeto” de nosso escândalo: a Palavra de Deus “encarnada”. Seu Espírito penetra em nós não como conclusão de um teorema, mas como consequência de arriscada decisão e opção. É essa opção que Pedro pronuncia, vendo a insuficiência de qualquer outra solução: “A quem iríamos? Tu tens palavras de vida eterna”.

I leitura: Js 24,1-2a.15-17.18b
A primeira leitura de hoje nos insere num clima de opção. É o discurso conclusivo do livro de Josué. O assunto desse livro é a conquista e tomada de posse da terra de Canaã pelas tribos de Israel. Depois que os israelitas tomaram posse da terra prometida, Josué organiza a renovação da aliança e pronuncia um discurso que começa recordando os grandes feitos do Senhor (Yhwh) a favor das tribos de Israel. O Senhor chamou Abraão e, tempos depois, tirou Israel do Egito (cf. 24,1-13). A memória desses grandes feitos exige uma opção. Será que Israel prefere esquecer seu passado e seu Salvador, como fazem tantos outros? Preferirá os “deuses da terra”, que se estima serem capazes de dar bem-estar e progresso – os ídolos de sempre? A opção de Josué é outra: “Eu e a minha casa serviremos ao Senhor” (24,15). Josué opta pela fidelidade ao Deus da aliança. E o povo se une a ele, respondendo: “Longe de nós abandonarmos o Senhor para servirmos a outros deuses; nós também serviremos ao Senhor, pois ele é o nosso Deus” (24,17-18).

II leitura: Ef 5,21-32
A segunda leitura não se situa no mesmo contexto que a primeira e a terceira. Continua com a carta aos Efésios, como nos domingos anteriores. Falando das relações na família, evoca o mistério do amor esponsal de Cristo pela Igreja. Toda existência genuinamente cristã revela algo do mistério de Deus. A família, quando vive em mútua dedicação e comum veneração de Cristo (cf. 5,21), revela o carinho de Cristo por sua Igreja. As regras de moral familiar das comunidades helenísticas, embora tenham alguns traços que nos parecem questionáveis (por exemplo, a submissão da mulher), são instrumentos para concretizar esse carinho, que fala de Cristo, a ponto de o matrimônio cristão se tornar a imagem do amor de Cristo pela Igreja, ou seja, sinal eficaz da graça de Deus: sacramento. (Na primeira teologia cristã, o que hoje chamamos de sacramento era chamado “mistério”.)

IV. Pistas para reflexão

A primeira leitura dá um exemplo de opção decisiva na escolha que Josué apresenta aos israelitas do século XII a.C.: entre um Deus que provou seu amor e fidelidade e outros deuses que devem sua existência a mitos humanos. Essa opção se apresenta também a nós. Optaremos por aquele que “deu a vida”, em todos os sentidos, ou pelos ídolos pelos quais tão facilmente damos nossa vida, sem deles recebermos a gratificação que prometem: sucesso, riqueza, poder?

Nos evangelhos desses últimos domingos, Jesus se apresentou como o “pão da vida” e proclamou sua carne como alimento para a vida do mundo. Muitos não “engoliram” isso, não apenas pela dificuldade de compreensão (alguns falavam até em antropofagia), mas, sobretudo, por causa das consequências práticas. Estranharam o que Jesus dissera a respeito de sua carne e estranhariam mais ainda a sua “subida para onde estava antes”, sua glorificação, pois esta se manifesta na exaltação ou enaltecimento de Jesus… no alto da cruz, onde ele revela plenamente o amor infinito de Deus, seu Pai. Só pelo Espírito de Deus é possível compreender isso (cf. 6,62-63). É difícil “alimentar-se” com a vida que Jesus propõe como caminho, com aquilo que ele disse e fez, sobretudo com o dom radical de sua vida na morte – pois tudo isso significa compromisso.

O povo de Israel, ao tomar posse da terra prometida, teve de escolher com quem ia se comprometer: com os outros deuses ou com o Senhor (Yhwh), que o tirou do Egito. Visto que o Senhor mostrara de que era capaz, optaram por ele (cf. Js 24). Jesus põe os seus discípulos diante da opção por ele ou pelo lado oposto: “Vós também quereis ir embora?”. E Pedro responde, em nome dos Doze e dos fiéis de todos os tempos: “A quem iríamos? Tu tens palavra de vida eterna”. O que Jesus ensina é o caminho da vida eterna, da comunhão com Deus para sempre. Foi para isso que Jesus reuniu em torno de si os Doze, que representavam o novo Israel, o povo de Deus, para que o seguissem pelo caminho e constituíssem comunidade, comungando da vida que ele dá “pela vida do mundo” (6,51).

Nosso ambiente parece recusar essas palavras que prometem vida eterna, realização plena de nossa caminhada. Isso por diversas razões: há pessoas que querem viver sua vidinha sem se comprometerem com nada ou preferem um caminho próprio, individual… O difícil da palavra de Jesus consiste nesse compromisso concreto. A dificuldade do cristianismo não consiste tanto em penitências e abstinências, mas em abdicar da autossuficiência e entregar-se a uma comunidade reunida por Cristo para segui-lo no caminho da doação total. Todavia, esse caminho é também o caminho da “perfeita alegria”, de que falam Francisco de Assis e o papa Francisco.

Província Santa Cruz - MG



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