Lançado em: 01-04-2017

ESPIRITUALIDADE

Penitência em Santa Clara

O modo de vida iniciado por Clara de Assis recolhe os sentimentos de Francisco acerca da penitência. Clara diz em seu Testamento (24): “depois que o Altíssimo Pai celestial, por sua misericórdia e graça, se dignou iluminar meu coração para fazer penitência segundo o exemplo e ensino de nosso bem-aventurado Pai Francisco”. Essa vida penitencial de Clara também passara pelo corpus de seus escritos.

A vida pessoal e comunitária de oração de Clara tinha sua expressão externa nos jejuns e penitências que fazia. Essa realidade nos aparece clarividente pronunciada pelos testemunhos do Processo de Canonização. Em Santa Clara podemos de antemão dizer que oração e penitência são realidades indistintas, não obstante, inseparáveis.
Clara empenhava-se assiduamente na vida de oração e contemplação de Cristo crucificado. Destarte, suas penitências e abstinências também eram feitas sob o olhar ‘desconfiado’ e, ao mesmo tempo, preocupado de suas irmãs. Em tais penitências, suas irmãs viam claramente sinais de santidade.
Possivelmente, os ‘exageros’ penitenciais cometidos por Clara, advertidos por São Francisco, e a constante maceração da carne faziam parte da chamada “cultura da penitência”, característica marcante dos primeiros meados do século XIII, sobretudo entre as mulheres.

Esta cultura nascente era em linguagem antropológica “uma atitude de fundo do homem frente à vida e à morte, frente a si mesmo e a Deus.” Não obstante ao caráter que caracterizava a penitência como atos exteriores e obras de mortificação, a penitência também assumia uma dimensão a ser trabalhada para toda a vida, não só para os que optavam pela vida monástica, mas, igualmente, por pessoas que viviam ‘no século’.

As práticas de penitência assumidas por Clara eram também comuns a outras mulheres da época e tinham como principal objetivo o de contemplar Cristo crucificado, imitá-lo e nisso participar de seus sofrimentos. Entretanto, muitas vezes, essas práticas penitenciais chegavam ao extremo de uma violenta autopunição.
Clara também foi influenciada por essa religiosidade, marcada pela “maceração da carne”. No entanto, sua prática de penitência é iluminada por sua clareza espiritual. Isso não quer significar que a penitência de Clara foi branda, mas que ela não age simplesmente nos moldes dos costumes de sua época. Clara é radical na penitência, especialmente quando esta é entendida como oração, pela vida fraterna e, sobretudo, pelo privilégio da pobreza, tão ardentemente defendido por ela. A penitência de Clara é fortemente marcado pela minoridade (fraternidade e pobreza) principal intuição de Francisco, e se iluminou Clara e o carisma de São Damião, deve continuar iluminando a prática do carisma franciscano.

Clara, em seu Testamento, chama sua primeira vocação de vocação à penitência. Por isso, foi chamada “mulher da penitência.” Era representante “daquele mundo de devoções e de espiritualidade que uniu a descoberta do crucificado com as práticas mais severas de mortificação pessoal.
Clara fazia de sua penitência oração e louvor ao Deus Altíssimo e pedia sempre a Deus para que o Senhor iluminasse seu coração para a penitência.

Algumas considerações ‘não conclusivas’

Tanto Francisco quanto Clara foram fiéis no seguimento dos ideais assumidos, tanto em atitudes quanto em perseverança aos mesmos ideais, assim como a alma penitente dos profetas e dos homens da Sagrada Escritura no caminho da metanóia-conversão. Caminharam na direção de Deus. Fugiram do mal e praticaram o bem, e conduziram a si mesmos e a seus companheiros/as ao amor para com Deus e com os outros.
No entanto, a experiência penitencial em Francisco de Assis e

Clara de Assis são experiências distintas. Essas diferenças giram em torno da concepção de corpo que cada um deles possui. Também porque na espiritualidade de Francisco não é concebível a ideia de autopunição. Mas, Clara não se opõe a Francisco, uma vez que ambos são tocados por um mesmo espírito que os move.

Clara se abriu a uma nova maneira de ver a penitência e também por uma nova relação com o corpo. Francisco e Clara se ajudaram nesse aspecto da vida evangélica, sendo um para o outro conselheiro e irmão.
Entretanto, alguns elementos são característicos da penitência franciscana. O primeiro deles, fundante de toda espiritualidade que se diz cristã é abrir-se à docilidade do Espírito Santo. Tendo essa docilidade, a alma penitente se abre à graça e, consequentemente, à mortificação e a regeneração daquilo que no corpo e na alma se opõe ao Espírito do Senhor e seu santo modo de operar (Cf. RegB 10,9).

Na consciência de fazer-se penitente o homem faz esforço de reconhecer humildemente a própria condição moral, de suportar pacientemente as adversidades e procurar incessantemente a paz interior. Tem em si um intenso desejo tanto de temor quanto de amor de Deus. Nesse sentido, ser penitente é deixar-se guiar pelo Espírito no lento e progressivo processo de transformação do amor divino. O homem, em seu caminho de penitência, concilia-se tanto consigo mesmo, quanto com os homens de seu redor como com todo o cosmo em seu conjunto de criaturas. Ser penitente com Francisco e Clara é buscar o caminho do Evangelho, junto com a fraternidade, vivendo de forma simples, como menores, com pureza de coração e de alma.

Frei Adriano Cézar de Oliveira, OFM

 



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