Lançado em: 18-04-2017

ESPIRITUALIDADE

Pureza do Coração

“… Depois de um momento de silêncio, Francisco perguntou a Leão: Irmão, sabe acaso o que é a pureza de coração? — É não termos falta alguma de que nos acusemos, respondeu Leão sem hesitar. — Então compreendo a tua tristeza, disse Francisco, porque temos sempre alguma coisa de que nos acusar. — Sim, concordou Leão, e é precisamente isso que faz com que eu perca a esperança de chegar um dia à pureza de coração.
Ah! Frei Leão acredita me, retorquiu Francisco, não te preocupes tanto com a pureza de tua alma. Volta o olhar para Deus.

Regozija te por Ele ser todo santidade. Dá lhe graças por causa dele mesmo. Isso é que é, irmãozinho, ter o coração puro. E quando estiveres voltado para Deus, não voltes a debruçar te sobre ti. Não perguntes a ti próprio em que ponto estás em relação a Deus. A tristeza de não sermos perfeitos, de nos descobrirmos pecadores é, ainda, um sentimento humano, demasiadamente humano. É preciso que eleves o teu olhar mais alto, muito mais alto. Há Deus, a imensidade de Deus e o seu inalterável esplendor. O coração puro é aquele que não cessa de adorar o Senhor vivo e verdadeiro; o que toma um interesse profundo pela própria vida de Deus e é capaz, no meio de todas as suas misérias, de vibrar com a eterna inocência e a eterna alegria de Deus. Semelhante coração é, a um tempo, despojado e cumulado. Basta lhe que Deus seja Deus. É mesmo nisso que ele encontra toda a sua paz, todo o seu amor. E então, é o próprio Deus que é toda a sua santidade. Deus, no entanto, exige o nosso esforço e a nossa fidelidade, observou Leão.

Sim, sem dúvida, respondeu Francisco. Mas a santidade não é uma realização do nosso eu, nem uma plenitude que nos damos a nós mesmos. Acima de tudo ela é um vazio que descobrimos em nós, que aceitamos e que Deus vem encher na medida em que nos abrimos à sua plenitude. O nosso nada, compreendes, quando é aceito, transforma se no espaço vazio onde Deus pode, ainda criar. O Senhor não deixa que ninguém lhe roube a sua glória. Ele é o Senhor, o único, o Santo. Toma, porém, o pobre pela mão, tira o da lama e fá lo sentar no meio dos príncipes do seu povo a fim de que ele veja a sua glória. Deus torna se, então o céu da sua alma.

Contemplar a glória de Deus, Frei Leão, descobrir que Deus é Deus, eternamente Deus para além do que nós somos ou possamos ser, alegrar se, em cheio, com aquilo que Ele é, extasiar se diante de sua eterna juventude e dar lhe graças por causa da sua indefectível misericórdia, eis a exigência mais profunda desse amor que o espírito do Senhor não cessa de derramar em nossos
corações. Ter o coração puro é isto. Mas esta pureza não se obtém à força de punhos e de tensão.

Que fazer para a alcançar? Perguntou Leão: Basta simplesmente nada guardar para si. Nem sequer essa percepção aguda da nossa miséria. Desprender se de tudo. Aceitar ser pobre. Renunciar a tudo o que é pesado, inclusive ao peso das nossas faltas. Já não ver senão a glória do Senhor e deixar se iluminar por ela. Deus é, isto basta. O coração como a cotovia ébria de espaço e de azul abandonou todo e qualquer cuidado, toda e qualquer inquietação. O seu desejo de perfeição mudou se num simples e puro querer de Deus. Leão escutava com ar grave, enquanto ia caminhando adiante de seu pai. Porém, à medida que avançava, sentia que o coração se lhe tornava leve e que uma grande paz o invadia”.

Frei Adriano Cézar de Oliveira, OFM
 

 



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