Lançado em: 19-12-2017

Carta de Natal do Ministro Geral

Litteræ Ministri Generalis Ordinis Fratrum Minorum

DEUS SE FAZ HOMEM PARA QUE O HOMEM POSSA TORNAR-SE DEUS

Vamos a Belém ver o que aconteceu

Este ano a Custódia da Terra Santa celebrou 800 anos de sua fundação. A Ordem dos Frades Menores não poderia ignorar este evento que iniciou a missão. Eu quis estar presente, junto com o Vigário Geral, no meio dos frades, pois a mensagem da Terra Santa interpela cada frade menor de hoje. O Verbo de Deus armou a sua tenda no meio dos homens e se fez filho do homem para habituar o homem a compreender Deus e para habituar Deus a fazer sua morada no homem de acordo com a vontade do Pai. Em Belém Deus assumiu um rosto humano.

Verbum abbreviatum

São Francisco pedia aos frades pregadores para usar brevidade de palavras (Rb 9,4). O motivo é este: quia verbum abbreviatum fecit Dominus. Nos tempos passados Deus falou muitas vezes e de vários modos por meio dos profetas. A sua palavra prolongou-se por séculos. Agora, no entanto, fala por meio do Filho, que é a sua palavra breve. Esta palavra se faz carne em Jesus e reassume em si toda a revelação: Deus é amor. Guerrico de Igny, um monge cisterciense, escreve: “Ele é a palavra condensada de modo que nela encontra-se o cumprimento de toda palavra de salvação, pois ele é a palavra que em si se cumpre e sintetiza o plano de Deus. Não devemos admirar se a Palavra sintetizou para nós todas as palavras proféticas, vendo que quis ‘abreviar’ e de qualquer modo diminuir a si mesma”. Também para São Francisco os frades menores devem anunciar a palavra de Deus encarnada, o Verbum abbreviatum. Ao diminuir-se da palavra de Deus corresponde o fazer-se pequeno de Francisco e dos seus irmãos: o estilo do anúncio franciscano será aquele do fazer-se menores, isto é, pequenos como o Verbum abbreviatum.

A Encarnação de Cristo mesmo se Adão não tivesse pecado

Duns Scotus, discípulo de Francisco, diferente de muitos pensadores cristãos de seu tempo, defendeu a ideia de que o Filho de Deus teria se encarnado como homem mesmo se a humanidade não tivesse pecado. “Pensar que Deus teria renunciado a tal obra se Adão não tivesse pecado seria totalmente irracional! Digo, então, que a queda não foi a causa da predestinação de Cristo, e que - também se nenhum tivesse caído, nem anjo, nem homem - neste caso, Cristo ainda teria sido predestinado da mesma forma” (Reportata Parisiensia, in III Sent., d. 7, 4). Para Duns Scotus, um teólogo otimista, a Encarnação do Filho de Deus é o cumprimento da criação. Esta concepção muda o nosso modo de ver toda a criação que por Deus é elevada à sua própria grandeza. Pensemos nas consequências que tal visão tem sobre a consciência ecológica e sobre a consideração do meio ambiente, como muda o olhar sobre o mundo e suas relações sociais, em uma perspectiva que o nosso Papa Francisco chama de “ecologia integral”.

Nasceu em Belém, terra de paradoxos

Belém era a terra de Rute. Nos campos de Booz, Rute vinha recolher os cachos deixados pelos ceifadores: ela chamou a atenção do patrão que se enamorou e com ela se casou, mesmo sendo uma moabita, uma estrangeira. Do amor deles nasceu Obed, que foi o pai de Jessé, o qual por sua vez foi o pai do rei Davi. Na genealogia do rei Davi e do filho de Davi tem uma estrangeira, Rute, a moabita.

O profeta Miqueias tinha preanunciado que o Messias sairia da humilde vila de Belém e o profeta Isaías que ele nasceria de uma Virgem (na versão dos LXX Parthenos) da descendência de Davi e seria chamado por ela de Emanuel, Deus conosco. Nos campos de Booz onde Rute respigava, onde Davi apascentava o seu rebanho, o profeta Samuel vem consagrar o rei de Israel. Lá os pastores de Belém, que passavam a noite fora vigiando o rebanho, receberam o feliz anúncio do nascimento de Cristo: “Hoje nasceu para vocês um Salvador”.

O imperador Augusto comandava no mundo com todo o seu poder e ordenava um recenciamento, enquanto o Filho de Deus não só nascia como todos os humanos, na fragilidade e na fraqueza, mas também nascia como filho desconhecido, na pobreza de uma gruta de Belém. O anjo que levava a boa notícia não aparece nos palácios do Herodium aos grandes deste mundo, mas aos pastores desprezados pelos grandes.

O escândalo da encarnação de Deus

As profecias tinham preanunciado e aclamado o Messias, referindo-se ao seu nascimento como “um menino que recebeu o poder sobre seus ombros, e lhe foi dado este nome: Conselheiro- maravilhoso, Deus-forte, Pai-eterno, Príncipe-da- paz” (Is 9,5); e, no entanto, este menino aparece frágil, nascido no incógnito. Uma mulher grávida dava à luz um filho em uma gruta. De modo que ninguém percebeu, nenhum daqueles importantes sabiam. Maria, a mãe, depois do parto envolveu o menino em faixas e o depôs em uma manjedoura.

Um nascimento como tantos outros, no entanto era o nascimento de um homem que só Deus poderia dar-nos, um homem que era a própria forma de Deus (Fl 2,6), um homem que era a Palavra de Deus feita carne. Daquele momento Deus não só estava presente em nosso meio, mas era um de nós, humanidade de nossa humanidade, irmão de cada ser humano.

Eis aí o mistério que celebramos no Natal: o Altíssimo se fez baixíssimo, o Eterno se fez mortal, o Onipotente se fez frágil, o Santo se fez solidário com os pecadores, o Invisível se fez visível. Deus se fez homem em Jesus, o filho de Maria. Este evento produziu a crise de toda relação na qual Deus é Deus e o homem é um homem, pois a transcendência os separava. Com o Natal a humanidade está em Deus e Deus na humanidade; e não é possível dizer e pensar Deus sem dizer e pensar na humanidade. Aquele menino, do nascimento até a morte, revelará Deus com a sua vida, as suas palavras, o seu comportamento, com o seu corpo oferecido e entregue nas mãos dos malfeitores.

Depois de São Bernardo, São Francisco insistia sobre a humanidade de Jesus e a sua encarnação. Este é um elemento essencial do carisma franciscano. Depois do nascimento de Deus- homem, existe primeiro o homem e não o sábado, existe primeiro o homem e não a lei, antes de adorar Deus em Jerusalém, deve-se adorá-lo em Espírito e verdade.

Desta revelação se fazem ministros os anjos; primeiro o anjo que apareceu aos pastores, depois as fileiras de anjos - os 70 anjos das nações, de acordo com Orígenes - que louvam Deus e reconhecem a sua glória. Exatamente aqueles pastores, tidos como últimos na sociedade de Israel, pois no deserto não observavam as leis de pureza, eram os primeiros destinatários do Evangelho. A eles o anjo do Senhor anuncia a boa nova do hoje de Deus.

Deus se faz homem para que o homem possa tornar-se Deus

O homem é chamado a ser divinizado, a ser transfigurado, a reencontrar a sua veste de luz. Descobrir na simplicidade de um neonato enfaixado o Filho de Deus: esta realidade humilde deve abrir nossos olhos.

Esta é a nossa fé humaníssima: na pobreza de Belém a vida se manifestou e foram os pobres que a acolheram. Uma palavra atribuída aos padres da Igreja dizia: “Você viu o seu irmão, você viu o seu Deus”. Pois agora Deus pode ser visto, ser encontrado, ser reconhecido, ser amado, ser adorado no homem e na mulher que todos os dias encontramos. A divinização torna-se possível quando cada cristão aproxima-se da mesa do pão eucarístico e Belém torna-se para ele a “casa do pão” (esta é a etimologia hebraica de Bethlehem).

A terra deu o seu fruto

Natal significa que Cristo quer nascer no coração dos crentes. Ângelo Silésio, um místico dos Países Baixos, observava: “Mesmo que Cristo nascesse mil vezes em Belém, se não nascer em você, você está perdido para sempre”. Um cisterciense medieval acrescenta: “Cristo ainda não nasceu completamente. Ele nasce cada vez que uma pessoa torna-se cristã”.

Francisco de Assis comenta em sua primeira Admoestação: “Eis que ele se humilha diariamente, como quando veio do trono real (Sb 18, 15) ao útero da Virgem; vem diariamente a nós ele mesmo aparecendo humilde; desce todos os dias do seio do Pai (Jo 1,18; 6,38) sobre o altar nas mãos do sacerdote”. Cristo nasce sobre o altar cada vez que o sacerdote celebra a Eucaristia.

Francisco faz um paralelo entre o Natal e a Eucaristia, tanto que em Greccio, onde recriou a gruta de Belém, ele não quis estátuas, mas a celebração da Eucaristia sobre a manjedoura, pois aí o Senhor “vem a nós numa aparência humilde”. Vamos recordar disso, irmãos, quando participaremos da missa na noite de Natal e reconheçamos a vinda do Senhor.

A luz brilhe em nossas trevas

Inácio de Antioquia explica aos cristãos de Éfeso o símbolo da luz que brilha em nossas trevas: “Uma estrela no céu brilhou acima de todas as outras estrelas e a sua luz era indescritível e a sua novidade causou espanto... E havia perplexidade acerca de onde vinha esta novidade que era diferente dos outros astros. Daí que toda a magia tenha sido desfeita e a prisão do mal tenha desaparecido. A ignorância foi destruída e o reino antigo aniquilado, tendo-se Deus manifestado com forma humana para a novidade da vida eterna”.

Hoje, no mundo globalizado no qual vivemos, ser filho da luz exige uma grande coragem e, às vezes, somos tentados pelo desânimo. Porém a sua luz continua brilhando, humilde e silenciosa.

Hoje, neste mundo líquido que é o nosso, somos convidados a reencontrar a rocha da Palavra de Deus que se encarnou em Jesus. Ele nos oferece um apoio firme e seguro, que dá força e paz à nossa vida.

A primavera árabe tinha acendido um pouco de esperança no Oriente, esperança que foi rapidamente desiludida. O Natal, que fala de uma luz que surge, de uma estrela que brilha no céu, nos permite recomeçar a esperar.

Natal na sociedade de consumo nos fala do Verbo que se faz pequeno, que escolhe para si a sobriedade e a pequenez, e nos recorda que a felicidade não está no possuir o no expandir-se, mas no fazer-se pequeno para servir os irmãos. Natal faz renascer a esperança cristã e tira o medo do futuro.

“Agradeçamos a Deus Pai por meio de seu Filho no Espírito Santo, pois na sua misericórdia Ele teve piedade de nós e, enquanto estávamos mortos por causa de nossos pecados, nos fez reviver com Cristo para que fôssemos nele criaturas novas, novas obras de suas mãos”, escrevia Leão Magno.

Feliz Natal! Que o Filho da Virgem Maria encha de alegria o coração de cada um!

Roma, 29 de novembro de 2017
Solenidade de todos os Santos Franciscanos

Frei Michael A. Perry, OFM
Ministro Geral e Servo



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