Lançado em: 07-06-2018

“O Centro mais íntimo de Jesus”

São profundas, densas as reflexões de Rahner. Precisam ser lidas com vagar e com o coração.

A assustadora estranheza da situação na qual a Igreja deve anunciar, a uma humanidade desesperada, a louca mensagem da esperança universal, tem algo a ver com a devoção ao Coração de Jesus?

Em sua existência religiosa e apesar da unidade última de Deus para a qual tende, o homem se encontra diante de numerosas realidades religiosas que parecem submergi-lo. Se assim não fosse, o Concílio não teria falado de uma hierarquia de verdades que é proposta ao fiel, que cada um deve estabelecer por sua parte, em função da situação e sob a direção do Espírito. Quando o homem religioso quer reunir e estruturar a multiplicidade de dados e orientá-los para a unidade última do mistério de Deus, lança mão de arquétipos: são palavras que apontam para um infinito, palavras que, em sua singularidade, tudo anunciam, palavras que brotam do mais íntimo da existência pessoal, lá onde tudo é ainda um, palavras que evocam o centro e unidade última de toda a realidade. Talvez cada um tenha o seu.

“Coração” é certamente uma dessas palavras. Designa o centro mais íntimo onde toda multiplicidade ainda é una. Quando dizemos “Coração de Jesus”, evocamos aquilo que o Cristo tem de mais íntimo. Afirmamos que este centro está repleto do mistério de Deus. Dizemos que neste coração, em contraposição a todas as experiências de vazio, nada e morte – reina o amor infinito pelo qual o próprio Deus se entrega. Quando dizemos “Coração de Jesus”, é isso que cremos e confessamos com todas as forças de nosso próprio coração. Confessamo-lo no âmago de uma experiência antropológica de abandono e mesmo de desespero. Nesse momento temos razões para dirigir nosso olhar para aquele cujo coração foi traspassado”.

cor_jesus_centroPara não poucos cristãos, “Coração de Jesus” pode parecer como um duplicata de “Jesus Cristo”. E, no entanto, aquele que na aventura de sua experiência religiosa teve ocasião de experimentar a inaudita altura, profundidade, comprimento e largura da realidade da salvação, uma tal pessoa não pode deixar de repetir qual é o centro último desta prodigiosa multiplicidade de vida e morte, de perda e salvação, de risos e lágrimas, de luz e de trevas. Então tal fiel diz: “Coração de Jesus”. Volta-se para esse coração traspassado e amoroso, que nos ama nas trevas e nos becos sem saída, esse Coração é o próprio Coração de Deus e nos transmite sem nunca esgotar o mistério primordial de Deus.

Há apenas um lugar existencial onde o homem possa se abandonar inteiramente e sem condições ao que ele tem de mais pessoal, sua salvação sem ser aniquilado, sem cair no desespero da condenação: é Deus experimentado como misericórdia. Certamente, o homem não consegue distinguir e separar a misericórdia do Deus que perdoa e salva de sua incompreensibilidade e soberania absolutas e a reivindicação de sua salvação pessoal.

O homem haverá de se entregar a Deus, sem condições, sem reserva nessa disposição que tem por nome fé e esperança. Não será capaz de tanto a não que se entregue a Deus como ao amor ao qual ele pode e deve crer, ele pode e deve esperar. Porque sabe que lhe será feito o dom do amor. Para colocar esse ato de fé de maneira consciente e refletida só é possível diante de Jesus Cristo crucificado e ressuscitado, diante de seu coração traspassado.

Esse Coração entregou-se à angústia inexorável da morte e da derrelicção divina: entregou-se a julgamento de Deus sobre o mundo. Esse Coração – é a cada vez o prodígio novo e sempre imprevisível da graça – nos dá coragem, no esquecimento de nós mesmos, de acreditar no dom cada vez renovado de seu amor para cada um de nós. Falando mais exatamente é a coragem de esperar este amor num ato que não é simplesmente ato de fé, mas já começo do amor.

Contemplamos o Coração do Senhor, e a questão decisiva para a eternidade invade o fundo de nosso ser e de nosso coração e de nossa vida: “Tu me amas? mas-me de tal forma que este amor, em sua força invencível, cria para mim uma eternidade bem-aventurada, a minha?” Para esta questão toda resposta estará envolta num mistério, nada de resposta que alguém poderia dar a si mesmo. Ela mergulha no mistério que o Coração de Jesus tornou próximo de nós. Colocada devidamente como deve ser colocada, na fé, na esperança e na caridade, tal questão vai até o Coração de Jesus e lá não encontra uma mera resposta mas é superada e ultrapassada pelo mistério que é amor, mistério divino que torna vão todo questionamento.

Deus, mistério eterno, imensidade sem nome, bem-aventurado abismo que a tudo enche e nada exclui, pronunciaste a tua Palavra eterna na criação e em nossa existência, a fim de que teu mistério eterno se torne para nós indizível proximidade salvadora e centro do mundo. Contemplamos a Palavra que proferiste, olhamos aquele que é o coração do mundo, lançamos nosso olhar para o coração de teu Filho, traspassado por nós. Tudo o que há de incompreensível em nós e em nossa existência encontra abrigo nesse coração; toda nossa angústia existencial é por ele assumida, toda elevação e toda santidade voltam a ele como sua fonte. Nele se encontra sua verdadeira essência e se reconhece como amor. Tudo se unifica no mistério que é amor bem-aventurado.

A devoção ao Coração de Jesus não se aprende de fora. Cada um, que confiando na Igreja e no Espírito, tente aproximar-se do mistério nas horas claras e nos tempos de escuridão, fazendo esta oração: “Coração de Jesus, piedade de mim!”

Uma tal oração, quem sabe deverá ser repetida à maneira da “oração de Jesus’, do peregrino russo, ou como mantra da oração oriental. Dever-se-á fazer seguinte experiência: o que há de mais inverossímil, de mais impossível, e, ao mesmo tempo, mais evidente é que Deus, o incompreensível, nos ama de verdade e tal amor tornou-se irrevocável no Coração o de Jesus: ali esperamos esse amor para todos.

Reflexões de Karl Rahner

Revista Christus Número hors série, maio 2001, consagrado ao Coração de Jesus



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