Lançado em: 07-09-2018

Mês da Bíblia - Livro da Sabedoria

A Igreja do Brasil no mês da Bíblia deste ano, propõe para as comunidades cristãs a leitura e o estudo da primeira parte do Livro da Sabedoria (1,1–6,21) com o tema: Para que n’Ele nossos povos tenham vida! e o lema: A sabedoria é um espírito amigo do ser humano (Sb1,6).

1. Contexto histórico e social do livro

O livro da Sabedoria escrito em grego, relê e sintetiza a história do povo de Israel, atualizando a mensagem para a realidade vivida em Alexandria, no século I a. C.
Apresenta o caminho ideal da justiça, como sinônimo da verdadeira sabedoria. Faz um diálogo entre o judaísmo e a cultura grega.
Atribuído a Salomão, o livro é de um autor anônimo judeu de Alexandria que escreveu pelo ano 50 a.C. (talvez, entre 150 e 50 a.C.). Isso manifesta-se nos indícios de carácter literário e histórico. A atribuição do livro a Salomão (6-9), deve-se ao fato de a tradição bíblico-judaica de situar este rei na origem do gênero literário sapiencial, o que faz dele o sábio por excelência (7,1-21; 8,14-16; 9; Cf. 1 Rs 3,5-9; 5,9-14; 10,23-61).

O autor é um judeu helenizado residente em Alexandria, familiarizado com a cultura, costumes e língua grega, que usa noções da filosofia helênica (7,22; 9,15).
Conhece a história do povo Judeu e a fé em Deus sempre presente e pronto a intervir nela; sente a forte atração que as principais filosofias helenísticas e as diversas religiões exercem na vida dos seus irmãos de raça e de fé. Tenta estabelecer o diálogo entre fé e cultura grega (6-8), para sublinhar que a sabedoria que brota da fé e conduz a vida dos judeus é superior à que inspira o modo de viver dos habitantes de Alexandria.

O escritor, não é teólogo, nem filosofo, mas um sábio de Israel, cheio de fé no Deus dos antepassados, orgulhoso de pertencer ao “povo santo”, a “raça de Israel”. O sábio por excelência é o entendido na arte de bem viver; descobre e ensina a ver na natureza o amor de Deus. É um educador nato, que traça normas para seus discípulos como prudência, moderação nos desejos, trabalho, humildade, ponderação, reserva, lealdade na linguagem, entre outros. O autor faz uma síntese de todo o decálogo e o traduz para seus discípulos em conselhos práticos. Tem a preocupação de conduzir bem a vida para obter a verdadeira felicidade.
livro é dirigido aos judeus, cuja fidelidade é abalada pelo prestigio da civilização alexandrina. Os destinatários são todos os que estão dominados e oprimidos pela cultura estrangeira e idolátrica. O texto é muito mais uma obra apologética do que proselitista. Em meados do século 1 a.C. Alexandria, era o centro cultural mais importante da bacia do Mediterrâneo. O sistema econômico, estava na base da composição da sociedade, que tinha como colunas principais o mercado livre e o sistema escravista. Apenas os homens livres eram considerados membros ativos e participantes das decisões políticas; os escravos, os camponeses e as mulheres não contavam nas decisões e eram considerados elementos periféricos da sociedade. Toda esta massa de marginalizados constituía aproximadamente de 85 % da população, formada por judeus, escravos, camponeses, mulheres, entre outros.
Os judeus não podiam participar inteiramente da vida política, social e cultural grega, inclusive havia uma perseguição aberta contra eles. A situação vivida constituía uma ameaça à fé e à identidade do povo judaico. Os destinatários do livro conheceram e viveram de perto esta situação de marginalização e exclusão.

A questão central do livro é o confronto cultural e religioso que se traduz no campo econômico, social, político e ideológico. A comunidade judaica busca um projeto de resistência e esperança para manter a identidade religiosa e cultural. Para alcançar o objetivo clama à memória, ao patrimônio histórico e religioso dos antepassados; a lembrança do passado reforça a identidade do povo judeu, fazendo-o capaz de resistir no presente e caminhar com nova luz para o futuro.

2. Teologia do livro da Sabedoria

A Sabedoria e o destino do homem (1,1-5,23) descreve-se a sorte diversa dos justos e dos ímpios, à luz da fé; sendo a justiça imortal (1,16), Deus reserva a imortalidade aos justos. O livro inicia a mensagem articulando a fé com o amor e a prática da justiça: “Amai a justiça, vós que governais” (1,1). Na primeira frase está contido o programa do livro, que nos apresenta critérios de discernimento para uma política justa, alicerçada na Sabedoria. O livro termina com uma profissão de fé afirmando, que Deus nunca abandona o seu povo. “A justiça é imortal” (1,15). Esta é afirmação máxima do livro, o núcleo ao redor do qual tudo o mais vai girar. Centro da vida do próprio Deus e do seu projeto.
Elogio da Sabedoria (6,1-7,18) origem, natureza, propriedades e dons que acompanham a sabedoria (7,22-8,1), como personificação de Deus (Cf. Pr 8; Sir 24); elogio da sabedoria, elevando-a acima dos valores mais apreciados neste mundo. O autor retomo o convite inicial (1,1), dirigindo-se aos governantes (6,3). O poder e o domínio são próprios de Deus, e não dos governantes, estes quando muito exercem esse serviço como uma função realizada em nome de Deus. A função da autoridade é para promover e preservar a justiça. A sabedoria, consiste no bom senso que cresce e se aprofunda no meio das ambiguidades, que ajuda no exercício do discernimento sobre circunstâncias e situações (6,12-21). A perfeição da sabedoria é o próprio discernimento de Deus.
Origem da sabedoria. (8-9) culmina numa prece, na qual é instantaneamente pedida a Deus.

A origem da sabedoria (8,2-21) é o essencial para se adquirir é pedi-la a Deus na oração. Ela é superior aos dons reais como a riqueza, a glória e o poder (7,8-10; 8,10-15), e deve ser preferida a tudo. A Sabedoria rege todo o universo e o renova, é o projeto de Deus presente em tudo. Ela é a mãe dos bens (7,21); artífice das coisas (7,21; 8,6); atividade criadora de Deus. Torna-se a companheira ideal. O pedido da sabedoria deve nortear os governantes (9,1-18). O primeiro pedido é o dom da sabedoria que permite o discernimento para realizar a justiça, ela exerce a função de mediação entre Deus e a humanidade. Deus criou o homem pela sabedoria (9,2), e este é salvo pela mesma sabedoria (9,18), já que sem ela é impossível responder ao apelo divino (9, 4.6.17). É presença de Deus ao mundo, aos homens e mulheres. O projeto de Deus, só é conhecido pela sabedoria, enviando do alto o espírito santo (9,17).

A Sabedoria na história de Israel (10,1-22) a sabedoria está presente em toda a história do povo de Israel com especial incidência sobre o Êxodo (11,1-19,17), em forma de midrache e de contrastes, que caracterizam o estilo desta terceira parte (11,4-15,19; 16,1-4.5-14.15-29; 17,1-18,4; 18,5-25; 19,1-21). O autor manifesta conhecimento profundo de outros livros como Gênesis, Provérbios, Ben Sira e Isaías. Julgamento da idolatria (13,10-14,31) descreve de forma irônica a fabricação de ídolos, utiliza textos bíblicos antigos, sobre tudo a experiência do Egito. A idolatria que cimenta ideológica e religiosamente o sistema econômico e político que produz a exploração e a exploração do povo. Trocar o serviço ao Deus vivo e libertador pelo culto aos ídolos que são produto humano (14,12-31), tem consequências drásticas para a vida humana. Tanto s pessoas, como a sociedade se tornam escravas da mentira e da corrupção em todos os níveis. Por trás de cada vício há sempre um ídolo.

3. A situação de dominação como o lugar hermenêutico do livro

A mensagem do livro não vale apenas para o povo da Alexandria do ano 50 a.C. O texto surge num quadro de opressão e dominação. As comunidades tem o risco de perder sua identidade, sua fé e irem atrás da idolatria. Neste sentido, o livro oferece diferentes luzes para nossa realidade. A chave de leitura do livro (1,1) é a justiça como alicerce da Sabedoria, para o exercício do poder. Também apresenta o problema da idolatria (13-14), este problema não é só do passado.
Muitos judeus eram tentados a seguir o caminho dos “ímpios” e a renegar a sua fé, tanto pela perseguição, como pela vida moral fácil que os alexandrinos levavam, em contraste com as exigências apontadas pela lei (2,1-20). Os “ímpios” são o contraponto dos “justos” personificam um estilo de vida oposto e hostil ao do judeu crente. Temática caracterizada pela ideia de justiça, em três sentidos bíblicos: como virtude da equidade, isto é, dar a cada um o que lhe pertence; como cumprimento perfeito da vontade de Deus; e, finalmente, como força ou ação de Deus, que livra de toda a espécie de mal.
O livro tenta resolver o problema da felicidade dos justos e infelicidade dos ímpios pela retribuição ultraterrena para os justos. Por isso o autor mostra excepcionais

conhecimentos de toda a Bíblia e da vida cultural helenística. Para os gregos, a sabedoria era um meio para chegar ao conhecimento e contemplação divina, para o autor, ela é uma proposta de vida, um alguém que está presente em toda a vida e que preside à vida toda; que fala, estimula e argumenta. A sabedoria é assim porque é o reflexo da vontade e dos desígnios de Deus (9,13.17); porque partilha da própria vida de Deus e está associada a todas as suas obras (8,3-4) e tem a ver
com o espírito de Deus (1,6; 7,7.22-23; 9,17); é ela que torna a religião judaica muito superior às religiões idólatras (13-15). Numa palavra, a sabedoria é um outro modo da revelação de Deus; isto é, o próprio Deus atua na história de Israel (11-12; 16-19) e no mundo criado por meio da sua sabedoria.
Há uma evocação da fé em Javé e na sua providência (14,1-8), significa que está presente em todas as realidades apesar das contradições, porém sem sacralizar as
estruturas de injustiça. Enfim, o livro resgata a memória do povo, sendo chave para a leitura dos fatos vida à luz da Sabedoria. Ele é um sinal de esperança e resistência.

BIBLIOGRAFIA
CNBB. Texto base para o mês da Bíblia 2018. A sabedoria é um espírito amigo do ser humano. Ed. CNBB, Brasília, 2018.
CRB. Sabedoria e poesia do povo de Deus, Tua palavra é vida 4, ed. Loyola, São Paulo, 1993.
STORNIOLO, IVO, Como ler o livro da Sabedoria, Ed. Paulus, São Paulo, 1993.GILBERT & ALETTI. A Sabedoria e Jesus Cristo, Cadernos Bíblicos 32, Ed. Paulinas, São Paulo, 1985.



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