Lançado em: 10-11-2018

A beleza da Liturgia: qual a beleza na liturgia?

Afirma o Papa Francisco:

“No meio da exigência diária de fazer avançar o bem, a evangelização jubilosa torna-se beleza na liturgia. A Igreja evangeliza e se evangeliza com a beleza da liturgia, que é também celebração da atividade evangelizadora e fonte dum renovado impulso para se dar” (A alegria do Evangelho, n. 24).

Esta belíssima frase de papa francisco, escrita na sua Exortação Apostólica Evangelii Gaudium (2013), considerada pelos estudiosos como a chave de leitura para o seu pontificado, nos dá a possibilidade de refletir sobre a relação entre a beleza e liturgia que se faz visível na evangelização alegre. É o que pretendemos fazer, não só com este artigo, mas com a possibilidade de um itinerário a percorrer.

A humanidade pode viver sem a ciência, pode viver sem o pão, mas sem a beleza não poderá viver, porque não haveria nada a fazer no mundo. Todo o segredo está aqui, toda a história é aqui, é a beleza que salvará o mundo (Dostoevskij). Somos tentados muitas vezes a acreditar que a sensualidade nos afasta de Deus, mas o que de fato nos afasta de Deus é a abstração, diz Nicolás Gòmez. A beleza, encontro que surpreende, é a experiência dos sentidos que reconhecem o “sentido” dos sentidos.

Desse modo, como pontapé inicial gostaria de tentar definir a beleza. Tarefa nada fácil. Exatamente, porque alguns traços da beleza acabam por ser pessoais. Talvez o que eu ache belo, belíssimo, surpreendente de beleza, para o outro não passa de algo simples, natural e normal. Por isso, a beleza é vista como gosto pessoal, “subjetiva”, como se diz, é belo aquilo que eu gosto. Mas, na realidade, é a beleza verdadeira, “objetiva”, que salva o mundo, renova a vida, dá luz, calor, justa perspectiva para o homem iludido e confuso, voltado para si mesmo. É a beleza do outro que revela a minha beleza, assim, não existe beleza sem relação.

Para diminuir tal conceito, vamos começar por pensar qual a beleza que a liturgia pede e, por fim, tentar ver como a beleza da liturgia evangeliza o homem e a mulher de hoje. Assim, percorreremos um caminho de tentar responder 4 perguntas: que coisa é a beleza? A liturgia é beleza? Qual a beleza na liturgia? Como a beleza da liturgia evangeliza a Igreja?

 

Que coisa é a beleza?

Tal pergunta é importante e nos leva a fazer uma distinção fundamental: tem uma beleza que é cantada e proclamada pela fé, a beleza de Deus, que pode ser experimentada e vista, graças a ação do Espírito Santo, por quem sabe exercitar o sentido da fé; e, por outra parte, tem uma beleza das criaturas, experiência humana, feito pelo homem com os seus mais nobres sentidos corporais.

Toda a criação é plena de beleza. É a beleza do céu, da natureza, das manifestações cósmicas. E Deus viu que o que tinha feito “era coisa bela e boa” (Gn 1,4.10.12.18.21.25). É a beleza da criatura (muitas vezes ambígua, pois pode tornar-se beleza do ídolo que seduz e leva a tentação) que revela a beleza do criador. Assim, a beleza pode ser considerada como uma via, via pulchritudinis (“o caminho da beleza”, em tradução livre), através do qual podemos procurar e encontrar a Deus.

Também podemos reconhecer que a beleza é um sujeito e não simplesmente um atributo. O homem de fé pode entender que a beleza é Deus mesmo: “Esplêndido e magnífico és tu, ó Deus!” (Salmo 76,5). Uma beleza que pode ser confessada na fé. O Messias é considerado pelo salmista como o “mais belo entre os filhos dos homens” (Sl 45,3). A beleza do Senhor é uma beleza que transcende o visível das criaturas, é a beleza que só o amor é capaz de narrar e fazer contemplar. No Tabor, os evangelistas usam uma linguagem particular, simbólica, que lembra as manifestações de Deus no Antigo Testamento. É o olhar dos discípulos que muda, a percepção, a experiência de fé. Agora eles veem com o coração, entendem com a alma, veem a beleza de Deus. Beleza que está em nossos olhos, não somente nas coisas. Posso ver uma “coisa” bela, mas não acha-la bela.

 

Como é bom ver a beleza de Deus!

A transparência do rosto sorridente do Pai! Ao terem a certeza da presença divina, os discípulos viram o belo. O belo é o esplendor do verdadeiro (Platão). É bom estarmos aqui, replicam os apóstolos. Uma beleza que supera todos os outros belezas que ilumina e redimensiona nossa alegria em Deus. Adquire profundidade e esperança de imortalidade.

O belo é a prova experimental que a encarnação é possível (cf. Simone Weil). Assim, o cristianismo é “estética teológica”, não uma entre as religiões, muito menos uma ética-moral, mas uma verdadeira estética (cf. Balthasar). A carne de Jesus é o fundamento da estética teológica, da beleza que salva.

De fato, o homem procura pela beleza, mas para compreender a beleza que revela a Deus e as suas ações, exige do homem uma educação da inteligência, um caminho de procura e discernimento, ascese, jamais concluído, uma caminho fadigoso do sentido verdadeiro da beleza. Mais o aspecto sensível toca pela sua beleza, mais o homem é tentado a não escutar a própria interioridade, sendo prisioneiro da exterioridade, que dá ao esteticismo um valor fundamental, capaz de destronar a verdade e a bondade. E assim, o consumismo do belo é marcado pelo privado da subjetividade e pela ausência da sacramentalidade.

É preciso concentrar-se naquilo que “é mais belo, maior, mais atraente e ao mesmo tempo, mais necessário” (EG, n.35). O coração do Evangelho, recorda papa Francisco, resplandece a “beleza do amor salvífico de Deus manifestado em Jesus Cristo morto e ressuscitado” (EG, n.36). Pergunta ainda o papa emérito Bento XVI: “que coisa é a beleza, que os escritores, poetas, músicos, artistas contemplam e traduzem em linguagem, senão o reflexo do esplendor do Verbo eterno feito carne?” A beleza da liturgia, então, parece não ser uma questão estética de “formas”, mas um questão teológica de conteúdo: a beleza da liturgia é a beleza da pessoa de Jesus e do seu dom pascal oferecido em cada celebração.

 

Autor: Frei Luis Felipe C. Marques, OFMConv.

Fonte: Site dos frades menores conventuais

 



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