Lançado em: 12-06-2019

Sermões de Santo Antônio - AS VÁRIAS OFERTAS DA VIRGEM MARIA

Lemos no Livro dos Juízes: “Água ele pediu, leite ela lhe deu e em uma taça de príncipes ofereceu creme” (5,25). Sísara (chefe do exército de Canaã) significa “exclusão da alegria” e é figura do diabo que, excluído da alegria da vida eterna, procura de todos os modos excluir também os cristãos fiéis. A ele, que pedia a água da concupiscência, a nossa Jael (Maria) ofereceu o leite. Foi por divino conselho que o mistério da encarnação do Senhor permaneceu escondido ao diabo. Vendo que a beata Virgem era casada, estava grávida e deu à luz a um filho e o amamentava, o diabo pensou que também ela fosse sujeita à concupiscência e ao pecado e, por isso, aproximou-se dela para exigir-lhe, como preço, a água da concupiscência. A Virgem, porém, amamentando seu Filho, levou ao engano o diabo e assim matou-o com a estaca da tenda e com o martelo. Na estaca, que serve para fixar e fechar a tenda, é representada a virgindade de Maria. No martelo, que tem a figura de um tau (T), é representada a cruz de Cristo. Jael, portanto, ou seja, a Virgem Maria, matou o inimigo, o diabo, com a virgindade do seu corpo e com a paixão do seu Filho pregado na cruz. Por isso, diz o Livro de Judite: “Uma mulher hebréia, sozinha, cobriu de vergonha a casa do rei Nabucodonosor. Com efeito, eis Holofernes que jaz no chão, decapitado” (14,18). Adonái, Senhor, Deus grande e admirável, a Vós o louvor e a glória, a Vós que nos destes a salvação pela mão da vossa Filha e Mãe, a gloriosa Virgem Maria! No trecho citado no início, prestemos atenção às palavras “ofereceu creme numa taça de príncipes”. São estas palavras que nos deram motivo para as considerações preliminares. Vejamos o que significam a taça, os príncipes e o creme. Na copa é representada a humilde condição do pobre, nos príncipes, os apóstolos; e, no creme, a humanidade de Cristo. Em sua humilde condição de pobreza – que até os “príncipes” (os apóstolos) teriam tido, ricos na fé, mas pobres neste mundo –, Maria ofereceu, no templo, o creme, quer dizer, o Filho que tinha gerado, do qual diz o profeta Isaías: “Nutrir-se-á de mel e coalhada” (7,15). No mel é indicada a divindade; na coalhada, a humanidade do Salvador. Ele nutriu-se de mel e coalhada quando uniu, em si mesmo, a natureza divina e a humana e, por isso, “aprendeu”, isto é, fez com que também nós aprendêssemos a “rejeitar o mal e a escolher o bem” (Is 7,15). Em sua pobreza, Maria ofertou o Filho e, com ele, a oferta dos pobres, isto é, um par de rolas ou duas pombinhas, como prescrevia a lei de Deus. “Quando uma mulher engravidar, e der à luz a um filho homem, será impura por sete dias” (Lv 12,2), à exceção, porém, daquela que deu à luz permanecendo virgem. Nem o Filho nem a Mãe precisavam de ofertas para purificar-se, mas o fizeram para que nós fôssemos libertados do temor da lei, isto é, da prescrição da lei que era observada por medo. E continuava a lei: “Quando os dias de sua purificação se completarem, isto é, após quarenta dias, deverá oferecer um cordeiro na entrada da tenda. Se não o encontrar ou não tiver a possibilidade de oferecer um cordeiro, oferecerá duas rolas ou duas pombinhas” ( Lv 12, 6.8). Esta era a oferta dos pobres, que não tinham a possibilidade de oferecer um cordeiro, e isto é dito porque em tudo deveriam manifestar-se a humildade e a pobreza do Senhor e de sua Mãe. E fazem esta oferta fazem aqueles que são realmente pobres. Observe-se que, se a rola perder o companheiro, ficará sozinha para sempre. Vai embora solitária, não bebe água límpida, não sobe sobre um ramo verde. A pomba também é simples. Tem o ninho mais rústico e pobre entre os demais pássaros, a ninguém fere com as unhas nem com o bico. Não vive de rapinas. Com o bico nutre seus filhotes com o que ela mesma se nutriu. Não come cadáveres. Nunca ataca os outros pássaros nem os mais pequeninos.

 

Alimenta-se de grãos. Esquenta sob as asas, como se fossem seus, os filhotes dos outros. Mora na beira dos rios para defender-se do gavião. Faz o ninho entre as pedras. Quando a tempestade ameaça, refugia-se no ninho. Defende-se com as asas. Voa em grupo. Seu canto é como um gemido. É prolífica e alimenta os gêmeos. Observe-se também que quando as pombas criam e os pequenos crescem, o macho vai bicar na terra salgada, coloca no bico dos pequenos aquilo que pegou, para que se acostumem à comida. E se a fêmea, pelo sofrimento do parto, demora para voltar, o macho a bica e a empurra com força para dentro do ninho. Também os pobres no espírito, isto é, os verdadeiros penitentes, dado que pecando mortalmente perderam seu “companheiro”, isto é, Jesus Cristo, vivem sozinhos na solidão do espírito e do corpo, longe do tumulto das coisas temporais.

 

Não bebem a água clara dos gozos terrenos, mas aquela turva da dor e do pranto.

 

“A minha alma está perturbada, diz o Senhor. O que direi?” (Jo 12,27). Não sobem nos ramos verdejantes da glória temporal de que diz o profeta Ezequiel: “Levam os ramos no nariz” (8,17). Os escravos da luxúria carregam no nariz o ramo da glória temporal para não sentir o fedor do pecado e o mau cheiro do inferno. Além disso, os verdadeiros penitentes são simples como as pombas. O lugar em que moram e a cama em que dormem é rústica e pobre. Não ofendem ninguém. Aliás, perdoam a quem os ofende. Não vivem de rapina, mas distribuem suas coisas. Confortam e sustentam, com a palavra da pregação, aqueles que lhes são confiados e partilham alegremente com os demais a graça que lhes foi dada. Não se unem aos cadáveres, isto é, ao pecado mortal. Diz o verso: “Alguns cadáveres caíram pela espada, outros de morte natural”. Não escandalizam nem o grande nem o pequeno. Alimentam-se de puro grão, isto é, da pregação da Igreja e não dos hereges, que é impura. Tornam-se tudo a todos, promovem tanto a salvação de estranhos quanto de conhecidos. Amam a todos no coração de Cristo. Vivem à beira dos rios da Sagrada Escritura para se precaverem de longe das tentações do diabo que trama sempre alguma coisa para raptá-los e assim se defendem. Fazem seus ninhos nas fendas da rocha, isto é, nas chagas do peito de Cristo e, se houver a tempestade da tentação carnal, correm ao peito de Cristo e ali se refugiam e oram com o Profeta: “Sede para mim, ó Senhor, uma torre firme diante do adversário” (Salmo 60,4) e ainda “Sede, ó Deus, a minha proteção” (Salmo 70,3). Não se defendem com as unhas da vingança, mas com as asas da humildade e da paciência. O jeito melhor de vencer – diz o filósofo – é a paciência”; e ainda: “O refúgio das desgraças é a paciência”. Em união com a Igreja, com a comunidade de fiéis junto deles, eles se elevam até as coisas celestes. Seu canto é um gemido. Suas melodias são lágrimas e suspiros. Cheios de boa vontade, nutrem com o máximo escrúpulo os “dois gêmeos”, isto é, o amor de Deus e do próximo.

 

Observe-se ainda que o penitente deve ter duas virtudes: misericórdia e justiça. A misericórdia, por assim dizer, é a fêmea, que guarda os filhotes; a justiça é o macho. A terra salgada é a carne de Cristo, cheia de amargura da qual o penitente deve sugar o amargor e o salgado e colocá-los na boca dos filhotes, isto é, das suas obras, para que, acostumados com tal alimento, vivam sempre na dor e na amargura, “crucificando a carne com seus vícios e concupiscência” (Gal 5,24).

 

Não se esqueça também de que a discrição (prudência) é a mãe de todas as virtudes. Sem ela não se deve oferecer sacrifício. Por isso, se a pomba, isto é, a misericórdia, demora para voltar até seus filhotes (às obras boas) por causa do parto, isto é, da dor, dos gemidos e do arrependimento, a justiça, como macho, deve dirigi-la e guiá-la com uma certa energia, para que nutra os filhotes (as boas obras) e, nutrindo-os, os guarde. O penitente, portanto, arrependa-se de seus pecados, mas de modo tal a não tirar de si mesmo o necessário, sem o que não poderia viver. E, assim, quem oferecer tais rolas e pombas, o sumo sacerdote Jesus Cristo o libertará de qualquer fluxo de sangue, isto é, de qualquer impureza do pecado.

 

Tradução: Frei Geraldo Monteiro, OFM Conv. (Sermões de Domingos e Festas, volume II, pp.135-139, Edição Mensageiro de Santo Antônio).



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