Lançado em: 15-06-2019

Solenidade da Santíssima Trindade

A festa da Trindade nos mobiliza para uma novamaneira de viver e de nos relacionar com o DeusComunhão de Pessoas, cujapresença preenche o cosmos, irrompe na vida, habita decididamente no interiorde cada um de nós e é vivido em comunidade.

 

A Trindade “desvela” a maneira de ser deDeus, como Amor que se expande, em si e fora de si, deuma maneira “redentora”, inserindo-se na história da humanidade. Deus é Amor e só amor. Diante dapresença e da ação do Deus-Trinitário, afogam-se as palavras, desfalecem asimagens e morrem as especulações. Só nos restam o silêncio, a adoração e acontemplação.

 

Para facilitar tal atitude, vamos ativarnossos sentidos interiores para que se deixem impactar pelo Icone deRublev: da Trindade pensada à Trindade adorada.

 

A Trindade não é fácil de ser representada. Aquio artista representou-a na figura de três anjos peregrinos, assentados à mesade Abraão. O quê vemos neste ícone? Trêsanjos, reconhecidospor suas asas, estão assentados em torno de uma mesa. Os três sustentam umcajado na mão (Trindade Peregrina).

 

Trata-sede uma representação do relato da hospitalidade de Abraão, que se encontra em Gen. 18, quando o Senhor apareceu aopatriarca na planície de Mambré, sob a forma de três jovens. Abraão osconvidou a descansar e lhes ofereceu uma refeição. A tradição patrística viunesses visitantes uma figura das trêspessoas divinas.

 

Podemosnos aproximar do ícone a partir da beleza; num primeiro olhar, adivindade aparece revelando-se como uma grande luz que atrai e purifica. A ausênciade sombras no ícone quer fazer refletir a luz divina em tudo, situa-nos dianteda santidade de Deus e nos convida a participar da luz da vidatrinitária. Tudo está no mesmo plano, o plano celestial; e, num olhar defé, detrás da beleza de sua realidade sensível, o ícone nos remete mais além dovisível, para a beleza das realidades divinas que representa e transmite; arazão emudece, o coração admira. Ou seja, não é a imagem em si mesma que noseleva pelo que representa, mas aquilo para o qual ela aponta: o mistériotrinitário ou o “excesso deDeus”.

 

Observe,em primeiro lugar, o ritmo ou movimentocircular queparece invadir todos os elementos do ícone, convidando-nos a entrar no mistériode Deus. O movimento que, partindo do Pai, passa pelo Filho e se consumano Espírito, é um movimento de amor sem fim. Aqui, o ícone deixatransparecer o amor que une às três Pessoas divinas.Trindade é mistério de comunhão. É uma comunidade perfeita.

 

Oícone, através da reciprocidade dos olhares, evoca o eterno movimento de amor que une as três Pessoas divinas, nosentido de que nenhuma delas esgota em si mesma a existência, nem vive por simesma, senão que subsiste num mistério de total compenetração que ao mesmotempo as une e as diferencia. Isso é sugerido também pelo movimentocircular do rosto inclinado dos 3 anjos, eternamentejovens, sentados à mesa do universo, em torno ao alimento divino; rostos quesão semelhantes sem ser realmente idênticos. A linha triangular dos rostos e ocírculo dos corpos estilizados indicam um mistério de diversidade na unidade. Fundidos num êxtase que fala de unidade e de harmonia, os três rostos já dizemtudo.

 

Poucoimporta se o Pai é sugerido pelo anjo do centro ou se,antes, há um movimento que vai da esquerda à direita: o personagem da esquerdaindica ser o Pai; o do centro, o Filho; e o da direita, o Espírito Santo. As figuras do centro e dadireita olham com rosto respeitoso e humilde para a da esquerda, que se mantémmais erguida que as outras duas, posto que o Pai é origem e princípio de tudo. Ostrês, com efeito, tem a mesma atitude de abertura, de respeito, de súplica e deinvocação. Deles emana um mistério de eternidade, de amor, de quietude, depaz, de serenidade.

 

Esse movimento se manifesta igualmente ao fundo doquadro. A árvore se inclina para a esquerda do orante como se fosse submetidaao sopro de um vento forte. Ainda à esquerda se inclinam os planos cortados doteto do edifício. Tudo está em movimento,porque a vida é sair de si mesmo, é doar-se. Esse ritmo exprime acirculação e a comunhão da mesma Vida divina entre as Três pessoas.

 

Masa Trindade não se fecha em si mesma. O movimentoexpansivo expressa adoção, efusão, dom, generosidade e graça, que admite,convida o ser humano ao círculo divino. Tudo se orienta, na fé, para o mistério, para o encontro D’Aquele quevem. Curvando a árvore, o movimento circular da vida divina atinge a natureza.Inclinando o teto do edifício, atinge a humanidade orante, a humanidade no queela tem de mais elevado. O mundo todo constitui, de certo modo, a periferia; asTrês Pessoas divinas permanecem no centro.

 

Fixemo-nos,agora, nos traços das três pessoas. Elas não tem idade e,no entanto, transmitem uma impressão de juventude. Elas não tem gênero, no entanto elasunem o vigor à graciosidade. As fisionomias e os gestos não foram “construídos”em vista do charme e, no entanto o charme que se desprende éimenso. Rublev soube expressar de uma maneira única a eterna juventude e aeterna beleza das três pessoas.

 

Cadaum dos três anjos leva nas mãos um cajado alongado e muito fino. É que cadapessoa divina é um viajante, um peregrino. O quadro ressalta aparticipação de toda a Santíssima Trindade no mistério da salvação. Os trêscajados constituem uma declaração e uma promessa. Eles declaram que os três jávieram fazer morada na humanidade. Eles prometem que os três continuam, atravésda presença expansiva, a conduzir tudo para a plenitude. O quadro evoca, pois,o conselho das Três Pessoas divinas em vista da redenção do gênero humano.

 

Oartista, com sua obra, não pretendia sugerir pensamentos, mas uma oração. A perspectiva do ícone éorante, pois nos predispõe para “entrar” no mistério de Deus; também nosconvida a abandonar a lógica cotidiana do útil, para poder entrar na lógica dagratuidade, do espaço místico e cultual, do diálogo com Deus, até os cumes daadoração.

 

Oícone da Trindade de Rublev nos recorda que não se trata de entender, ou depensar e estudar o Mistério da Santa Trindade. O decisivo é viver o mistério apartir da adoração e da partilha fraterna. É Deus quem toma a iniciativade se aproximar dos seres humanos. Como foram até Abraão, a Trindade quer seaproximar também de cada um de nós. Dentro de nós habitam um Abraão e umaSara.

 

Quea contemplação deste quadro nos coloque em contato mais profundo com as Trêspessoas divinas para poder repetir, prostrados, as palavras de Abraão aosdivinos visitantes na planície de Mambré:

 

“MeuSenhor, se mereci teu favor, peço-te, não prossigas viagem sem parar junto amim, teu servo”.

 

Ese acolhermos as Três pessoas de todo coração, poderemos, como Abraão, receberde sua boca a certeza de que essa experiência abençoada, longe de ser umepisódio isolado, nos será concedida de novo: “passareide novo pela tua casa”. Sóassim sentiremos Vida brotar em nossas vidas, como irrompeuno seio de Sara. Não mais seremos velhos, estéreis e infecundos. A fé fazrejuvenescer.

 

Quea contemplação do belo e do Santo faça brotar em nós a imagem de Deus que éPai-Filho-Espírito. Amem!

 

Por: Pe. Adroaldo Palaoro sj

Fonte:www.salvatorianas.org.br/blog/trindade-do-triangulo-ao-icone/



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