Lançado em: 21-12-2019

Carta do Ministro Geral

Tornar-se um humilde servo de Deus que humilhou-se para salvar a todos

Meus queridos irmãos, queridos amigos da Ordem,

Que o Senhor lhes dê a sua paz!

Hoje me alegro com todo o universo criado cantando um hino de louvor e agradecimento pelo amor maravilhoso e misericordioso de Deus que transborda em Cristo Jesus! Nós abraçamos e fazemos nossa a própria mensagem do profeta Isaías que nós ouvimos na liturgia da manhã de Natal:

Escutem! Eis a voz das tuas sentinelas; ei-las que levantam a voz, juntas lançam gritos de alegria, porque com os seus próprios olhos veem a Iahweh que volta a Sião.

Neste texto do segundo Isaías, o retorno do povo da Aliança do exílio da Babilônia para Jerusalém, a Cidade Santa, é proclamado como uma realidade iminente, algo que acontecerá. As pessoas estavam esperando desesperadamente. Elas estavam cansadas de viver fora da casa e da terra delas, sem um lugar para dizer que era delas. Mesmo quando elas finalmente tiveram a permissão de voltar para a terra delas, o que é refletido no terceiro Isaías, elas se encontravam ainda e novamente em dificuldade e sofrendo com profunda exaustão existencial e espiritual. Elas descobriram logo que não poderiam simplesmente viver sobre a “fumaça” da fé dos seus antepassados, uma fé permeada por uma absoluta confiança naquele Deus que chamou Abraão e Sara, Moisés e Miriam, para saírem de suas seguranças e abraçarem uma nova visão e uma nova terra que Deus mesmo estava prometendo a eles. Estas mesmas pessoas estavam progressivamente exaustas dos abusos dos líderes dentro da comunidade – seja religioso ou político – os quais focavam mais o interesse pelo acúmulo de poder e riquezas para si mesmos e suas famílias e amigos que em levar uma vida verdadeiramente justa e espiritual. Elas estavam exaustas pelas pressões externas sofridas sobre elas para conformarem-se aos costumes religiosos, culturais, filosóficos e éticos daquele tempo. Elas estavam exaustas de viver com medo: medo de perder a identidade religiosa e cultural delas; medo de perder a esperança em Deus que tinha levado os seus antepassados da escravidão do Egito para uma terra prometida, e que agora estava oferecendo a elas a possibilidade de retornar para casa.

Neste contexto de estranhamento e enfraquecimento dos laços de fé e de fraternidade é que as palavras do profeta Isaías precisam ser entendidas. Apesar de seus falimentos, de qualquer modo persistiu entre as pessoas um profundo desejo por alguma coisa – ou melhor ainda, por alguém – que traria a elas uma mensagem de esperança, de retorno de Deus no meio delas, pois somente quando o Senhor retorna a Sião, quando o Senhor é colocado no centro de toda preocupação humana e espiritual, então as pessoas poderão encontrar o caminho de volta para a sua verdadeira identidade, sua verdadeira casa.

O que era verdade para o povo de Deus permanece verdade hoje: é Deus quem inicia este processo de restauração, uma restauração que nos leva pelo caminho da santidade de vida, um viver cotidiano fora de nossa fé, e também à prática da justiça e da paz de Deus. Mas, esta não é a restauração do coração da história do Natal? Não é o evento da Encarnação de Jesus, sua vinda no meio de nós como “um igual a nós”, seu partilhar conosco uma nova visão de como podemos de novo caminhar no amor, na misericórdia, na justiça, na verdade e na paz de Deus, no verdadeiro centro de nossa identidade como discípulos cristãos e como Frades Menores? Meus queridos irmãos, a resposta para estas duas questões somente pode ser descoberta no como nós vivemos fielmente a vocação à qual fomos chamados e que fomos escolhidos e enviados.

Retornando ao segundo Isaías por um momento, o texto mostra claramente que do campo de batalha será enviado um mensageiro para proclamar que Deus é vitorioso e que o sofrimento das pessoas acabou. Agora elas podem preparar-se espiritualmente, moralmente e psicologicamente para retornar para “casa”. Todavia existe uma virada nesta história. O mensageiro não é outro que Deus mesmo que chega com triunfo. O Senhor retorna! E o campo de batalha é a luta entre Deus e toda a história humana. Deus vem não apenas para libertar e redimir Jerusalém; Deus vem para libertar e redimir todas as nações e toda a história: passado, presente e futuro. A mensagem do profeta abre a oferta de salvação de Deus para todas as pessoas de todos os lugares, para cada um de nós hoje que fomos assinalados com o sangue do Cordeiro. Não mais limitada somente àqueles considerados parte da “Aliança” original. Esta é uma declaração ultrajante, uma heresia, visto que é admissível que Deus pode agir até mesmo fora dos parâmetros doutrinalmente aprovados e ritualmente purificados do “povo escolhido”. Deus pode agir até mesmo nas culturas ainda não purificadas, que ainda estão “no caminho rumo à santidade”, que aos poucos estão passando através do processo de inculturação e purificação. Deus pode agir até em pessoas que têm experiências de Deus, que concebem e executam ações de adoração pouco entendidas por aqueles que estão fora de suas culturas e tradições, mas que são genuínos atos de adoração, ações que conduzem à adoração de um Deus Criador universal. Então, a vitória que é declarada no campo de batalha da história não é uma vitória deste ou daquele rei, deste ou daquele país, desta ou daquela ideologia religiosa ou política, desta ou daquela cultura ou raça ou povo. A vitória que Isaías anuncia pertence a Deus somente. Deus está atraindo as pessoas rumo a Deus mesmo, o que é expresso através de uma variedade de formas visto que nenhuma expressão sozinha é capaz de conter tudo o que Deus é e tudo o que Deus deseja para o mundo.

Como são belos, sobre os montes, os pés do mensageiro que anuncia a paz, do que proclama boas novas e anuncia a salvação, do que diz a Sião: “O teu Deus reina!”

Meus queridos Irmãos e Amigos, isto nos traz ao verdadeiro coração da história do Natal que nós celebramos hoje. O evento único da Encarnação, Deus assumindo a forma humana, despojando-se para entrar em nossa condição humana, é um testemunho do amor e da graça redentora de Deus, do compromisso de Deus de entrar e redimir toda a vida sem exceção, sem exclusão. A paz, a boa notícia e a salvação de que fala o profeta Isaías é a declaração que Deus reina sobre tudo o que quer dividir e destruir a nós e o meio ambiente. Esta vitória não é baseada em uma ideologia de poder e potência, como imagina o mundo atualmente. Antes, é uma vitória baseada em um amor incondicional e misericordioso de Deus, que não tem paralelo na história humana ou de ordem natural. Este amor incondicional e misericordioso é expresso não através do poder e potência, mas através do que o Papa Francisco chama de “humildade de Deus levada ao extremo” (homilia do Natal de 2014). O Papa Francisco continua:

É o amor com que Ele, naquela noite, assumiu a nossa fragilidade, o nosso sofrimento, as nossas angústias, os nossos desejos e as nossas limitações. A mensagem que todos esperavam, que todos procuravam nas profundezas da própria alma, mais não era que a ternura de Deus: Deus que nos fixa com olhos cheios de afeto, que aceita a nossa miséria, Deus enamorado da nossa pequenez.

A Encarnação é, fundamentalmente, um evento relacional. Deus escolhe entrar em comunhão profunda conosco, então nós, da mesma forma que o povo no tempo de Isaías, podemos reconhecer a graça salvadora, a grandeza em que fomos criados e na qual somos chamados como filhos amados do Deus Uno e Trino.

Reconhecendo a verdade que Deus procura partilhar com toda a humanidade e a criação, nós nos tornamos humildes servos de Deus que humilhou-se a si mesmo para salvar tudo o que Deus criou. Mas, não é isto também o que está no centro da mensagem do Conselho Plenário da Ordem de 2018? Não é isto também que está na trajetória da Ordem quando iniciamos a olhar rumo ao Capítulo Geral de 2021?

Humildade, pequenez, pobreza, ternura; amor; aceitação. Estas palavras nos ajudam a entender a natureza da celebração do Natal, e como nós podemos viver e testemunhar este incrível evento da Encarnação de Jesus Cristo em nossas vidas hoje. Nós temos que apenas relembrar o papel dessas mesmas palavras, ou melhor ainda, as qualidades do discipulado de Cristo e da vida e missão franciscanas manifestadas na vida de São Francisco de Assis. Ele foi descobrindo progressivamente em sua vida, na vida dos seus irmãos, na vida daqueles que eram materialmente pobres e socialmente excluídos, na vida do Sultão al-Malik al-Kamil e de outros que não professam a fé cristã, e em toda a criação, que o poder transformador não está contido na “grandeza” de Deus mas ao contrário na “pequenez” de Deus. Francisco percebeu na pequenez e na pobreza da manjedoura o amor muito forte e profundo capaz de amolecer os corações mais duros e quebrar as barreiras que separam as pessoas umas das outras – geograficamente, culturalmente, socialmente, religiosamente e outras. É através da graça da Encarnação que são criados e mantidos novos caminhos para o encontro, o diálogo, a descoberta, o perdão e a fraternidade humana. Somente aqueles que são imersos na lógica do amor “Encarnacional” de Deus serão capazes de chegar àqueles que são descartados e excluídos: migrantes e refugiados; aqueles que professam outras ideias e práticas religiosas; aqueles que nós dizemos que são nossos “inimigos” quando, na lógica da Encarnação de Deus, eles são nossos irmãos e irmãs; a uma criação ferida, esgotada e sob a ameaça de uma exploração desenfreada e imoral.

Como nós celebramos o amor insondável e misericordioso de Deus que entrou na história humana num único e poderoso modo através da Encarnação de Jesus, vamos acolher o convite de Deus para tornar a sua verdadeira presença oferecendo shalom, paz, a todos que estão em torno a nós. Comprometamo-nos com os pilares sobre os quais esta paz é construída: verdade, justiça, amor, liberdade e perdão (cf. João XXIII, Pacem in Terris; João Paulo II). Que este mesmo dom da paz, completamente encarnado no grande dom de Deus ao mundo, seu amado Filho Jesus, encha os nossos corações de alegria. Que ele dê direção às nossas fraternidades. E ajude a plasmar a verdadeira substância e forma de nossa missão como co-discípulos com os Cristãos, caminhando juntos com Jesus, com a humanidade e com o universo criado rumo ao Reino de Deus.

Desejo a todos um abençoado Natal repleto de paz para cada um de vocês!

Roma, 12 de dezembro de 2019

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Imagem: Jacob van Oost, Adoração dos Pastores,Kunsthistorisches



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