Caras Irmãs,
O Senhor lhes dê a paz!
Estou alegre por escrever-lhes ainda nos primeiros meses do meu serviço de irmão e de ministro da Ordem dos Frades Menores e sei que tenho nesta veste um chamado particular para ter cuidado e solicitude especial por vocês, segundo a expressa vontade de São Francisco. E é neste espírito que, exatamente no início da Novena do Poverello, lhes escrevo a presente carta sobre um tema muito importante e delicado que toca a vida de vocês no seu coração carismático, eclesial e concreto nesta mudança de tempo. Toca também a nós, frades, porque estou intimamente persuadido de que a qualidade da vida evangélica das irmãs sustenta e motiva a nossa de irmãos e vice-versa. O mesmo vale para a perda de sabor, que nos encontra unidos.
O texto atual das Constituições de vocês data de 1985 e foi aprovado em 1988; ele prestou um precioso serviço, sobretudo em dar sempre mais unidade de inspiração e de escolhas fundamentais de vida às Clarissas espalhadas no mundo, caracterizadas historicamente por grandes diversidades no viver segundo a mesma Regra. Em particular, o texto atual ajudou a aprofundar a identidade carismática em contato com os Escritos e a teologia espiritual da Madre Santa Clara. Depois do centenário de 1993, pudemos aprofundá-los de modo novo, chegando a um conhecimento que jamais se pôde ter na história. Uma verdadeira graça que nos enriquece muito para buscar e amadurecer sempre mais uma vida carismaticamente significativa!
As recentes intervenções da Igreja na vida claustral, a Constituição Apostólica Vultum Dei quaerere (2016) e a instrução aplicativa Cor Orans (2018), pedem evidentemente uma revisão do texto das Constituições, levando em conta as indicações que contêm. Ao mesmo tempo, parece-me que se abre a possibilidade de expressar o texto com uma linguagem mais atenta à sensibilidade hodierna e que leve em conta o caminho percorrido nestes quase quarenta anos. Estou bem consciente de que se trata de um trabalho muito grande e exigente e, ao mesmo tempo, muito delicado. Conheço em parte as diferenças de sensibilidade e de abordagem do carisma e dos modos em que ele se encarna nas diversas regiões do mundo. Frequentemente, nas próprias Federações encontramos posições e escolhas diversas. Creio que esta diversidade, com as tensões inelimináveis que traz consigo, não pode deixar-nos parados. Somos chamados
juntos, irmãos e irmãs, para parar, rezar, refletir, reler os vários dados, buscar os modos de chegar a um texto que, levando em conta o momento atual, saiba dizer de modo novo o dom carismático de sempre que o Espírito deu à Igreja através de Santa Clara e de tantas irmãs que nestes séculos, com muita diversidade, viveram a inspiração dela. Refleti e rezei sobre esta proposta e creio que o Espírito no-lo pede hoje.
Portanto, caras Irmãs e Madres, dirijo-me a vocês para pedir-lhes com humildade que acolham com docilidade ao Espírito o convite a uma revisão e redação do texto que ajuda a interpretar e viver hoje a Regra de Santa Clara de modo a poder manifestar a permanente vitalidade do carisma de vocês.
Todos nós sabemos que é necessário muito empenho e capacidade de mediação; sei que haverá tensões inevitáveis, diferenças de pontos de vista e de metodologias; poderão também emergir fadigas na escuta e na avaliação das diversas experiências em ato; seguramente o diálogo intercultural não será fácil, e nestes quarenta anos a Ordem cresceu em regiões, culturas e linguagens novas do mundo. Se é verdade que não podemos ser adoradores de cinzas, mesmo sagradas, mas mulheres e homens capazes de acolher a novidade que o Espírito semeia ao nosso redor, então não nos apegaremos a formas, gestos, símbolos e modalidades do passado nem buscaremos novidades a todo custo. Sabemos que só o Espírito nos liberta e renova todas as coisas; por isso, ele quer infundir um hálito regenerado também à nossa forma de vida. E a abertura dócil à sua santa operação não é o fruto mais maduro de uma autêntica vida de busca
do Rosto do Senhor na altíssima pobreza e na santa unidade? Creio que valha a pena, com confiança, humildade e audácia.
Esta carta anuncia por ora a vontade de rever o texto das Constituições de vocês, segundo o que compete à minha faculdade de Ministro geral em força da Regra de Santa Clara cap. 1 e das Constituições art. 121, para promover o processo e acompanhá-lo com discrição através do Ofício Pro Monialibus. Comprometo-me pessoalmente a seguir o processo e a apoiá-lo, segundo as minhas responsabilidades e no pleno repeito à autonomia de vocês. No final, poderei
apresentar o novo texto à aprovação da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada. Já pude falar sobre isto com o Prefeito que encoraja este caminho necessário com paterna proximidade. Também o Definitório geral está informado e concorda.
Caras Madres Presidentes, o novo Delegado geral, Frei Fábio César Gomes, da Província da Imaculada do Brasil, estará presente em Roma depois da metade de novembro e então poderemos também com ele iniciar o trabalho, partindo da consulta para formar uma comissão internacional que chame para colaborar as Presidentes, os seus Conselhos e as Irmãs nos Mosteiros em outros níveis. Se no passado, em nível oficial, a comissão era composta só de Assistentes religiosos, embora valendo-se amplamente do trabalho das irmãs, graças também aos novos meios tecnológicos, estudaremos os modos para envolver mais pessoas neste trabalho.
Falei-lhes com franqueza e com profundo afeto fraterno: creio que este seja o clima no qual o trabalho que iniciamos poderá trazer fruto segundo o coração de Deus. Pedimos ao Senhor que purifique qualquer outro espírito diverso, divisivo, de oposição, de medo, sem temê-lo, porque o Espírito do Senhor é maior. O Senhor nos ajude a buscar juntos aquilo que lhe agrada e a realizá-lo segundo o bem comum.
Desejo-lhes uma luminosa festa de N. P. S. Francisco, verdadeiro amante e imitador de Cristo que, com a Mae Santa Clara, nos recorda que o Evangelho é o coração e a paixão da nossa vida. Abençoo-as e saúdo-as fraternamente
seu irmão e servo
Frei Máximo Fusarelli, OFM
Ministro geral


